quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

O mais surrealista dos surrealistas

Todo o Mexico cabe num quadro surrealista - Andre Breton dizia que era o mais surrealista dos paises. Assim o revelam as mais improvaveis aliancas - o catolicismo devoto com o humor face a morte, esqueletos que seguem de braco dado com a virgem -, uma paleta de cores, a obsessao pelos animais extra-terrenos, a musica, as cantinas, os jornais que trazem mortos todos os dias mas a vida continua sorridente, os mais que sao sempre os que mais dao.
De todos os sitios, a Cidade do Mexico - que aqui chamam apenas de Mexico (azteca para o umbigo da lua, que era como quem dizia o centro do mundo) ou DF (distrito federal, o tal onde cabe a gente de mais ou menos dois Portugais) - leva a premio da mais surrealista.
Ha uns senhores que vestem uniformes (quase se confundem com policias) e tocam caixas de musica a manivela pelas ruas, proporcionando momentos roufenhos, enquanto um outro companheiro estende a boina para as moedas. Ha as cantinas - os sabores, os sons, as filas a porta. Almoca-se as tres da tarde e pode durar ate as seis. Aqui, o funcionalismo publico vai das 9 as 13, pausa ate as seis e segue ate as nove da noite. As cantinas eram tradicionalmente masculinas e machistas - mas ja se veem muitas mulheres, embora raramente sozinhas. Nalgumas, pratica-se a botana - a comida vem como acompanhamento da bebida. Uma cerveza, comida. Segunda cerveza, mais comida. E por ai adiante. Tive a sorte de ir a uma cantina com Marcos Limenes, um pintor, recem-escritor, mas sobretudo uma figura apaixonante (obrigada, Pedro). Como uma cidade pode aparecer muito mais suave (o que, neste caso, nao e facil, dada a sua dimensao brutal) quando o primeiro olhar e acompanhado por um guia local. Marcos ensinou-me a colocar o dedo mindinho quando se come tacos - para cima se o taco e solido, por baixo se o taco leva mole.
Marcos nao vive na capital, mas conhece os seus segredos. Revelou-me dois, daqueles que nao constam dos guias. O estudio de Clausell, no Museu da Cidade, em que o pintor impressionista escolheu as quatro paredes para deixar os seus delirios, entre o classico e o grotesco, a sexualidade e a contencao. E o gigantesco mural de Vlady, filho do escritor Victor Serge, que chegou ao Mexico com Trotsky. Ocupa as quatro paredes (2000 m2) da biblioteca Miguel Cerdo de Tejada, entre frescos e oleos, quase sempre sobre as revolucoes - as politicas, as culturais, principalmente as das ideias.
Ja sem Marcos, fui ate a Hosteria La Bota, para acabar o dia ainda mais imersa no surrealismo. O sobrinho de Giorgina, a dona, concebeu o espaco com os frutos do seu coleccionismo. Antonio Calera-Grobet e escritor e vai deixando no cafe-bar da tia pedacos da sua vida: as primeiras botas de montanhismo e as primeiras sapatilhas estao pregadas a parede. Do tecto, vem castelos de garrafas e latas. Uma enorme cabeca de touro e outros artefactos tauromaquicos revelam um afficionado. Num canto, jaz uma televisao antiga, ainda com pernas em V. A bicicleta que Antonio sempre quis ter quando era miudo e nunca teve esta fixada ao tecto. Caes de louca fazem de centros de mesa. Ha luvas de boxe, macos de cigarros, uma virgem rodeada por luzinhas as cores a piscar, caixinhas de madeira com surpresas dentro, um livro com as memorias dos que por ali passaram (inaugurei o portugues)... Tudo cabe ali. "Conserve el agua, tome vino." E ha Giorgina - mae mexicana, pai suico, unhas vermelhas e grandes, cigarro na boca, voz rouca. Que desembrulha e volta a embrulhar os bonequinhos de madeiras pintados que vai mandar para a familia na Suica pelo Natal. Um dos sobrinhos ligou-lhe no outro dia, gritando 'ja encontrei o sitio para viver: Lisboa' Muy padre!

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