sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Halloween!

Um senhora de idade passeia a cadela enquanto fala com ela como se de uma pessoa se tratasse. A cadela levanta a perninha na árvore e consegue não mijar o véu de princesa de 'seda' cor-de-rosa que leva amarrado ao pescoço. Vem aí o Halloween. Isto promete...

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Foto-salto em DC





























Object? Me.
What the fuck am I doing? Um foto-salto, ou photo-jump, como preferirem (saibam mais sobre o conceito em
http://www.fotosaltos.blogspot.com/).
Location? No cimo do Arlington Cemetery (sim, aquele dos filmes, cheio de campas branquinhas, por todos os mortos nas milhares de guerras em que estes gajos já se meteram).
Ao fundo? O Washington Monument (esforcem-se, vá...).
Why? Just because it's fun.


PS - Esta posta é especialmente para a minha 'sis' e para o Tiago.

This country is always at war







Este país tem estado em guerra. II Guerra Mundial, Guerra das Coreias, Vietname, Guerra do Golfo, Somália, Afeganistão,Iraque...
O sentimento patriótico aqui é uma coisa tão sagrada que se transformou num dogma. Os memoriais nascem como cogumelos para lembrar os heróis. No muro com os nomes dos soldados que morreram no Vietname, meninos e meninas de escola deixam cartas ao "soldado desconhecido" agradecendo-lhe o que ele fez para que hoje eles pudessem ter uma vida melhor. Hein?? Lição a reter: os soldados só fazem coisas bem feitas e o mundo fica melhor depois de uma guerrazita. Do outro lado, no memorial pelos soldados mortos na Guerra das Coreias, agradece-lhes por terem lutado por "um país que não conheciam" e por "um povo que desconheciam". E se usassem antes o tempo para os conhecer - aos países e aos povos?
No Arlington Cemetery, por entre um sem fim à vista de campas, três militares rendem a guarda no monumento ao soldado desconhecido. O ritual diário termina com alunos do ciclo, sempre diferentes e sempre considerados pelos outros colegas como altamente privilegiados, a depositarem a coroa de flores em sua honra. Antes disso, um dos militares fala-lhes como se fossem também eles militares, instruindo-os para os passos que têm de dar até depositarem a coroa de flores.
O sentimento patriótico - que não tem só aspectos negativos, mas que aqui, me parece, turva um pouco o olhar sobre o país e o mundo - incute-se desde pequenino. E patriotismo implica força militar. Armas, para defesa da nação. A passagem de testemunho inter-geracional está assegurada. Este país continuará, por isso, em guerra por muitos anos.

Como vota o little Portugal de Manassas

Leiam aqui a minha reportagem sobre como votam os portugueses emigrantes em Manassas, um little Portugal a meia centena de quilómetros de Washington D.C.
http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1348019&idCanal=11
E agora vão comprar o jornal, vá lá.

Duas afro-american situations


1. Cinco putos desbundam, literalmente, uma newspaper box, daquelas que dão colorido mas também atrapalham as ruas por aqui. Fazem música com ela. Sons de rap. Fantásticos. Riem-se, divertidos. "She likes my dick!", cantam e repetem. Dão gargalhadas. Bisam a performance. Abandonam o spot.
2. O guarda de um edifício público sai para a rua, talvez para almoçar. Passa pelo dono de uma tenda de t-shirts. "Six days, man...", suspira o guarda, numa contagem antes de Obama, enquanta encosta a mão cerrada na mão cerrada do outro. "Yeah, put me in the White House!", responde o outro, não tão crente na mudança.

Hoje foram os óculos...

Tinha um encontro com a jurista que é directora executiva do Time Dollar Youth Court (www.tdyc.org), o objecto de estudo da minha bolsa do American Club de Lisboa, na zona onde estão todos os tribunais. Lá dou com o edifício certo, que estava todo coberto com obras nem parecia que havia ali alguma coisa, 20 minutos atrasada, entro no elevador, esbaforida e gelada (está que não se pode e as minhas cruzes não estão para isto), diz uma lady: 'Nice shades!' Agora são os óculos de sol?? Mas não se pode sair à rua sem ouvir um elogio qualquer? E o que é que respondo, volto a pensar. Que gosto dos dela também? Mas ela nem sequer tinha óculos! Se calhar era esse o problema! Dou-lhe os meus - toma, fica com eles? Vendo-os? Olha, have a good one, que é como vocês aqui desejam um bom dia.

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

As drags também votam




Centenas de drag queens desfilaram esta noite na 17th Street, em Washington D.C., apesar do frio. As Sarah Palin dominaram a corrida - sim, uma corrida, em saltos altos, altíssimos e altérrimos, rua fora, às vezes aos trambolhões -, mas também havia um bom McCain, muitos Obama looking e um genial Joe, the plumber. A comunidade LGBTQ - lésbicas, gays, bissexuais, transgéneros e queer - apoia o candidato democrata às eleições de 4 de Novembro e há até um braço oficial da campanha chamado Obama Pride. Que vendia t-shirts ali mesmo, enquanto distribuía um folheto apelando a voluntários para aderirem ao Yes We Van, que consiste em fazer carpool para "levar novos eleitores às urnas", para que a Virgínia passe a azul (a cor dos democratas). E Adrian M. Fenty, o mayor da cidade - o verdadeiro e não um disfarce - apareceu para cumprimentar as drags e apelar ao voto em Obama. Com os dois braços no ar, perguntou ao público quem preferiam na race. Gritaram "Obama!" Ele sorriu e disse: "Obama is not running in this race." Patrick Mara, do city council, passou minutos mais tarde, seguido por uma comitiva com cartazes reclamando a igualdade no casamento para a comunidade LGBT. Cinco drags-schoolgirls fizeram sucesso com a sua dança, levantando a parte de frente da saia - VOTE! -, mostrando as cuecas - OBAMA, uma letra em cada rabo. Mas as Palin arrancaram sempre os maiores aplausos. "Olhem só para o cabelo dela!", exclamava uma mulher entre a multidão que esperou para ver a corrida - evento anual, sempre na terça-feira antes do Halloween, de duas horas de desfile, fotografias e divertimento, que termina com uma corrida rápida e curta. Um homem gritava por Palin, 'mas onde é que ela está?', carregando os sacos das suas compras e empunhando um duplo cartaz: de um lado, a azul, vote first dude (tratamento popular dado ao marido de Sarah; do outro, a vermelho, Neiman Marcus (armazém caríssimo onde a campanha gastou parte dos 150 mil dólares em roupa para Sarah e a sua família) spoiled my girl. Uma Hockey Mom for Palin seguia de braço dado com uma Sarah Barracuda. Mas as drags não gostam só de política. Um grupo desvairado gritava 'this is my baby, this is my baby', enquanto segurava em nenucos e o público rejubilava: 'polygamous!"

terça-feira, 28 de outubro de 2008

W.


Fui aos moves. Preço do bilhete: 10,75 dólares (não nos podemos queixar de tudo, não...). Picocas tamanho small (equivalente a pelo menos um médio nosso...). Não me deitem esse look, ai pipocas, que barulho e tal... Sou pela integração. E a pipoca ajuda-me a passar despercebida, que é como quem diz a parecer american. Os avisos: a banda sonora deste filme está concluída, não lhe acrescente nenhum som da sua autoria (enquanto se ouvem telemóveis, bebés a chorar, pessoas a falar); um filme implica muitos telefonemas, mas basta um para o arruinar.
O filme: W. Sobre George W. Bush. É um Oliver Stone, com tudo o que isso tem de bom e de mau.
De bom: bem filmado, o estudo dos tiques e dos esgares das personagens reais, a exploração da turva relação pai-filho, a ascensão de um zero à esquerda mas um zero à esquerda pragmático e com nome na praça, a inspiração divina, a oração no final de cada encontro do gabinete, a banda sonora
(hilariante a
Robin Hood, Robin Hood,
riding through the glen
Robin Hood, Robin Hood,
with his band of men
Feared by the bad, loved by the good
Robin Hood, Robin Hood, Robin Hood
enquanto Bush atravessa os seus terrenos do Texas com os seus acólitos atrás e decide acabar com Saddam)
De mau: é parcial, mas não como um Michael Moore sabe e pode ser - come on, todos sabemos ao que vamos a priori... Agora querer parecer sério quando já se a tem fisgada... Discurso sobre o Iraque, toda a gente a aplaudir, imagens reais agora, ups, there's McCain! Tão fácil... Não é honesto. É demasiado longo também e a fórmula pessoal parece-me um pouco gasta - mas Stone é um addicted (e o Nixon também demora p'a carago).
Balanço: em grande medida previsível, mas ainda assim a valer a pena ser visto.

Smoking-free


Já sabia que havia prédios smoking-free para estas bandas, mas não sabia que ia viver num ainda que por breves momentos. E é vê-los a tremer de frio, à porta, agarradinhos ao vício (só me lembro da JAC a dizer que metia a cabeça pela saída do ar enquanto dava umas passas...). Isto porque todos os andares são alugados (pelo menos o Estado ainda não se mete com quem comprou casa e actually owns the place) e, por isso, os inquilinos têm de obedecer às páginas e páginas de policies do contrato, onde está tudo escritinho. Nem tudo é mau, pelo menos facilita quem decidiu deixar de fumar. So help me God!

domingo, 26 de outubro de 2008

Gospel, second round

Não foi uma estreia, mas uma repetência. Vi a primeira missa de gospel no Harlem e não creio que me venha a esquecer da sensação. Gosto de gospel, acho que todas as igrejas deviam ter aquela animação, aquela vibração, aquela energia colectiva. A religião devia fazer as pessoas felizes.
A Igreja de Saint Augustine tem uma missa católica com coro gospel às 12h30 de domingo. Fui. Uma hora e meia e nem dei por isso. Até à hora do sermão, o padre não fala mais de um minuto, vai directo ao assunto e deixa o coro cantar por si. Uma banda (bateria, baixo, flauta e piano) e trinta homens e mulheres nas vozes (e que vozes, oh Lord), apenas um non-African-American. Mas a plateia de crentes era mais diversificada, embora predominantemente negra.
Saint Augustine sempre foi a igreja dos negros - foi fundada por católicos negros quando a escravatura ainda era legal e a segregação era a regra, também nos locais de culto. A escola católica que lhe nasceu associada já educava as crianças negras há quatro anos quando uma educação gratuita e pública para crianças negras se tornou lei em Washington D.C.. A zona onde fica Saint Augustine está intimamente ligada ao movimento pelos direitos dos negros - ao lado, fica o parque Malcom X. Com dois mil membros registados e outras três mil pessoas que a identificam como a sua igreja, é uma das maiores paróquias de Washington D.C..
Voltando à missa. Nos bancos estão depositados exemplares do African American Catholic Hymnal "Lead Me, Guide Me", com as letras e as pautas musicais de todas as músicas do coro. E não há quem se faça rogado na cantoria - por azar, duas criaturas branquelas com ar de mórmons (um deles, para aí com 20 anos, tinha um asqueroso anel dourado com uma pedra azul brilhante) ficaram na fila atrás da minha e era ouvi-los a desafinar (não é racismo, mas a voz tem cor, meus amigos...).
Uma interrupção: 'o dono do carro com a matrícula ... é melhor ir tirá-lo, está lá a polícia.' A Casa de Deus avisa os incautos e os incivilizados.
O sermão. Agora é que vai ser abrir a boca, pensei. Nada disso. O pastor saltita no altar, emotivo e emocionante. Fala de 'amar Deus com o coração, a alma e a mente'. E vai fazendo comparações desportivas (quem gosta de baseball, sacrifica-se para ir ver um jogo - coach Jesus wants us to sacrifice for him too) e amorosas (num date, estudamos a pessoa, queremos saber tudo sobre ela - Jesus wants us to study him too).
Estão a ver aqueles cestinhos de metal com que se tira as folhas do fundo de uma piscina? Here they come... os depósitos das esmolas. Senhores e senhoras fardados a rigor benzem-se primeiro, colectam depois. Quando damos por ela, já estenderam a 'cana de pesca' até à ponta do nosso nariz! E depois querem saber quem são os first comers. E não vale a pena esconderem-se - they know who you are... Lá nos levantámos, um a um, vim dali e dacoli e que giro que isto é.
As palmas são aceites - e até incentivadas. Em cada fila, há um mexe-corpo, aqui mais manifesto, ali mais tímido. Até as passagens da Bíblia são lidas com alguma teatralidade. E a senhora que depositou o livro sagrado no altar parecia saída de um filme: toda de preto, vestido agarradíssimo ao corpo (será que ela o conseguirá tirar?), acima do joelho, pois que a Casa de Deus não tem nada contra pernas à mostra, saltos altos, óculos de massa (pretos) e, last but not least, chapéu de coco, qual versão feminina de Charlie Chaplin. Aleluia!

Poesia por Obama




Hoje, poetas declamaram por Obama, entre quadros de artistas também eles pró-candidato democrata. A iniciativa decorreu no Busboys&Poets, que se apresenta como um local de confraternização pela paz e pela justiça social, mas é também um restaurante-livraria que cede espaço aos mais variados eventos (www.busboysandpoets.com).
À entrada eram cobrados 20 dólares e em cima de uma mesa estava toda a parafernália pró-democratas que ainda podia aumentar a caixade Obama.
Acompanhada por um senhor ao batuque, Sistah Joy, uma das organizadoras, insistiu, sincopadamente, no slogan 'yes, we can', antes de lhe acrescentar qualquer coisa do tipo: melhorar o sistema educativo, promover a protecção na doença, aumentar a justiça social...
"Can America change? Yes, it can!", garantiu, antes de passar a palavra ao co-organizador Brenardo, que partilhou com as três dezenas de pessoas espalhadas pelos sofás do primeiro piso do Busboys&Poets a alegria que sentiu ao terminar a leitura de Dreams from My Father (livro escrito por Barack Obama): "This dude is real, man!"
Ao meu lado, uma senhora acabada de chegar perguntava-me "How are you today, sweatheart?" e eu pensava 'mas por que é que esta gente é tão simpática???' Primeiro foi a camisola, noutro dia foi as botas. "I like your shoes!" Assim, um grito, no metro. O que é suposto responder-se a isto? Eu também gosto dos teus? Os teus são horrorosos e, portanto, é normal que gostes dos meus? Vai comprar uns então? E agora sweatheart... Vá lá que não começam aos beijinhos...
Anyway, seguiu-se Mike Maggio, dos muito poucos 'non-African Americans' presentes, com um poema aos "irmãos iraquianos", do seu mais recente trabalho, deMockracy (sic), no qual critica a Administração Bush pela ofensiva contra o Iraque e lembra como alguns democratas foram acusados de "traidores" por terem questionado as "provas" que a sustentaram.
"É um momento maravilhoso para mim poder estar aqui, perto de eleger o primeiro Presidente negro dos Estados Unidos", disse Ty Gray-El, muito aplaudido por todos. Voto é poder, lembrou o poeta, declamando um texto seu sobre a importância da "pequena caminhada até à urna".
Mas a interpretação mais emotiva veio de Jason Reynolds, com frases em catadupa, em ritmo acelerado, sobre o assassinato de um amigo seu, há quatro anos - a raça, os jovens, o futuro. Reynolds, afro-americano de uma geração de poetas mais jovem do que os anteriores, não escondeu estar "orgulhoso" de, pela primeira vez, poder vir a olhar para um Presidente que se parece com ele. Obama, acredita, servirá de modelo aos jovens negros, mostrando-lhes que, se trabalharem "arduamente", não acabarão a "vender drogas".
A sessão terminou com a leitura de Owen, de doze anos e aluno de Sistah Joy, que revelou os traumas de uma criança resultantes dos atentados de 11 de Setembro de 2001.
No final, e após uma certa deusificação de Obama e muitos "aleluias", havia um bolo branco, vermelho e azul e champagne para todos.

sábado, 25 de outubro de 2008

September 11th

Há um antes e um depois do 11 de Setembro de 2001. E isso é visível em pequenas coisas. Como os bilhetes de avião incluírem uma September 11th Security Fee de cinco dólares; como os constantes avisos às pessoas mais sensíveis sobre algo alusivo aos atentados; como os lenços de papel cor-de-rosa à saída da sala na qual se pode ver um documentário sobre os jornalistas que cobriram o acontecimento, no Newseum, o fabuloso museu das notícias em DC. Os 'oh, my god' repetiam-se...

A moda da chinela

Hoje DC acordou a chover cães e gatos. E ainda não parou. Mesmo assim, encontrei vários espécimes humanos masculinos de chinela no pé, daquelas entre o dedo grande e o indicador. Podia pensar-se 'bom, foram apanhados desprevenidos, não olharam pela janela quando acordaram, etc.'. Mas não! Um deles trazia até guarda-chuva! Eles sabem o que andam a fazer, é consciente! Cá para mim vem aí a modinha do pé molhado...

O país da televisão

Milhares de canais, sobre tudo e mais alguma coisa. Este é o país da televisão. Quando estão em casa têm sempre a televisão ligada, mesmo quando não lhe estão a prestar atenção porque estão com os olhos cravados no computador, e o zapping é constante. E se pensam que é impossível ver um filme na TVI por causa dos anúncios de meia hora, ainda não viram nada. Aqui interrompem os programas de dez em dez minutos. Essencialmente para convencer a malta a comprar remédios para isto e para aquilo e dar dicas para perder peso. Pelo meio umas mensagens 'sponsered by' Obama ou McCain.

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Mas por que raio é que...

... aqui os peixes nunca têm espinhas e as uvas vêm sem grainhas?

The only caucasian





Hoje fui até ao Bronx cá do sítio. Menos hardcore do que o verdadeiro. Em Anacostia, onde não me cruzei com um único caucasian, ninguém tinha um ar feliz. Os homens ocupavam as esquinas das ruas em conversas arrastadas. Todos com bonés, todos com blusões desportivos, todos com calças a caírem pelo cu abaixo, todos com sapatilhas. Novos e velhos. Uma mulher e um homem gritavam um com o outro no meio da rua.
Anacostia fica no cimo da colina, com uma vista fantástica sobre o Washington Monument (aquele obelisco que aparece nas fotos) e o Capitólio (o Parlamento). É um sítio histórico para a comunidade negra e algumas das casas são verdadeiras pérolas. Mas fica em Southeast, e tudo o que é Este é esquecido. Diz que não se pode ir lá à noite. Eu acredito. Mas de dia é só um sítio um bocadinho deprimente. Suburbano.
O Center for African American History and Culture (um dos Smithsonian) fica em Anascotia (gostei do conceito dos museus nos sítios onde as comunidades vivem - querem saber como é? então venham ate cá um bocadinho, fáxabor).
Não é um museu excepcional, muda de exposição de seis em seis meses. Mas tinha coisas giras. Um filme com ex-jogadores de baseball da Negro League - a segregação também chegou ao desporto. They played for the love of the game. E a história do go-go, estilo de música que mistura o funk com o hip-hop e que só se ouve no District of Columbia (o primeiro a ilegalizar a escravatura, pela mão do Presidente 'negro' Abraham Lincoln). O go-go é, dizem os entendidos, o resultado da combinação do 'call-and-response' das igrejas afro-americanas e de uma série de instrumentos de percussão. "Go-go is the community. The people are go-go. The music is just part of our soundtrack."
Onde se pode ouvir, perguntei eu? Nas street corners, disse-me a recepcionista do museu. Não tive essa sorte. Apesar de ter decidido fazer o percurso inverso para a estação de metro/autocarro a pé, mesmo depois de me terem dito que não era uma 'walking distance'. Aqui nada é uma 'walking distance' e por isso é que eles pesam o que pesam...
Depois, em vez de me meter no metro, optei pelo autocarro. Os transportes colectivos são museus vivos a preços acessíveis. E o autocarro tem uma vista melhor. Fiz um percurso de uma hora, passei por tudo o que era bairro, cruzei o centro da cidade e outra vez pelos bairros do outro lado... Não entrou nenhum branco: uma indian-american, uma mexicana. Durante uma hora, I was the only caucasian in the bus. Elas saíam do trabalho com as crianças atreladas, dar de biberão, sit down, não chores... E eles, onde andarão?

Details

1. Os condutores de autocarro, invariavelmente blacks, são as únicas pessoas a prestarem serviços invariavelmente mal-encaradas. E ou se põe os 1,35 dólares certinhos na máquina de comer dinheiro ou there´s no change. Como é que se sabe? Não sabe. Experimenta-se. E não se repete.

2. CVS Pharmacies: vendem de tudo, até medicamentos, tipo anti-histamínicos e anti-gripais, que aqui a venda livre é quase universal. E, claro: snacks de todo o tipo, especialmente large size, bebidas de todo o tipo, especialmente cheias de corantes, gás e, claro, large size, chocolates e candies de todos os feitios, pensos higiénicos e tudo o que é de higiene pessoal e produtos de beleza, pilhas e outras electroniquices... É um entra e sai de gente que nunca acaba.

3. Nos supermercados, passa-se o cartão numa máquina e assina-se o nome directamente no visor - com uma daquelas canetas usadas naqueles quadros mágicos para putos, onde se escreve e se pode apagar e voltar a escrever. Têm nome?

4. Na fila para levantar os bilhetes para o concerto da Aretha, uma asian-american (como me soam mal estas designações...) deixou escapar um 'shit' sentido. E sentiu-se, olhando para mim e pedindo desculpa. Devia estar a gozar...

Just a school bus


The Simpsons!!!!!!!!

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Obama is my homeboy


O Halloween está à porta e as lojas já estão todas enfeitadas a propósito. Diz que é a loucura em DC, especialmente em Georgetown, onde estive hoje. Georgetown é um subúrbio chique e endinheirado, de casinhas apalaçadas com alpendre e colunas de pedra, onde predomina a cor de tijolo. Com o rio Potomac aos pés. É também uma das shopping zones.

Entrei numa loja fantástica, com o genial nome de Commander Salamander. À porta, um enorme graffiti com o rosto do Obama apela ao voto. Lá dentro, meia dúzia de t-shirts fazem do próximo Presidente dos Estados Unidos (cada vez mais imparcial...) um ícone pop, ao estilo Bob Marley. Obama is my homeboy, lê-se numa delas. Não resisti: comprei um magic badge que, consoante a luz, vira de 'take drugs' para 'not war'. E trouxe o Lenny Bruce em íman de frigorífico: «Take away the right to say 'fuck' and you take away the right to say 'fuck the government'.»

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Fan-fucking-tastic!

Foi apresentada como "the queen". Aretha Franklin entrou de vestido de cauda, creme com brilhantes, um colar de pêlo branco ao pescoço. O cabelo curto e escuro (ufa... o loiro ficava-lhe mal). Talvez menos gorda um bocadinho, mas still gorda. As mamas podem servir de travesseiro a qualquer um. Entrou a matar: Respect a abrir. Whip it to me. A senhora mexe. O que é something, aos 66 anos.
Já arfa, claro. E tem de fazer uma pausa a meio - as divas também fazem chichi. Aliás, logo à segunda música, depois de ter pedido para desligarem o ar condicionado, saiu do palco a dizer que ia descobrir onde se desligava o ar, por causa da garganta. Na plateia, já tinham ouvido aquilo. "Ela não gosta de ar... Nunca canta com ar..." Mas ela voltou e prometeu dar o litro para compensar "o dinheiro a mais" que as pessoas pagaram para ali estar.
O Constitutional Hall deve ter a lotação do Coliseu e estava meio cheio. Claro que a malta dos lugares baratinhos (80 dólares, ainda assim) usurpou os melhores lugares por ocupar logo ao início. Me included. Primeiro num dos camarotes, que aqui não são fechados. E depois mesmo corredor fora até lá à frente. Acabei a bater palmas freneticamente como se numa missa de gospel (saudades do Harlem). Que subiram de tom (muito imparcial...) quando, finalmente, depois de hora e meia sem nenhuma alusão a Obama (verdade que em DC não é preciso muito esforço para convencer os 60 por cento de afro-americanos, como são por aqui chamados, a votarem no homem), Aretha saiu do palco e voltou para se despedir das gentes com um boné enfiado na cabeça. Onde se lia: Obama 2008! E atirou-o ao público. Loucura total. Black power is in the house. Aliás, na house estava a black community em peso.
Aretha tem um disco novo, do qual distribuiu exemplares. E outro na quelha. Tem uma senhora voz, principalmente para as brincadeiras do sobe e desce de tom, e para as baladas... Ao piano, descalça-se. Chain of Fools e uma plateia inteira em pé. Still Water e o mundo parou. Uma piada sobre Muhammad Ali (que já foi Cassius Clay). O boxeur recusou-se a pôr o cinto no avião, alegando que não precisava porque tinha o super-homem dentro do corpo. Ao que a hospedeira respondeu: 'o super-homem não anda de avião e, se andasse, também punha o cinto.' Outra piada sobre uma amiga que lhe ligou a dizer para ela ter cuidado com os hotéis em DC porque da última vez que cá esteve encontrou um homem no quarto e logo apareceu também a polícia. Mas ela pediu para o virem buscar só na manhã seguinte...
Mas genial, genial... foi o momento em que Aretha fez uma versão da sua música preferida para fazer exercício: Touch My Body, de Mariah Carey. What you start on the floor, you have to finish on the floor. Ousada, a senhora. Mão desafiante no rabo e dedo a escorregar pelo gigantesco seio também fazem parte da performance da queen. A dada altura reclamou por um DC brother que lhe massajasse os pés. A senhora acha que é sexy, e ainda bem.

Concert talk

- I like to see Sex and The City on tv.
- I don't need to watch it, I know people like that!

R.E.S.P.E.C.T.


Vou ver e ouvir a diva do black power. Aretha Franklin. Amanhã conto tudo.

It's all about taxes

A economia é uma preocupação, e um factor de decisão, em quaisquer eleições, sejam elas americanas ou europeias. Mas nos Estados Unidos há uma obsessão com as taxes - que são sempre as taxes, mesmo quando é um emigrante português a falar. Todos acham que pagam muito e aceitam tudo menos pagar mais. E Obama assustou aqueles que ganham mais dinheiro, e já pagam mais impostos, com a proposta de aumentar as taxes para todos os que ganham mais de 250 mil dólares por ano e reduzir para os que fazem parte das chamadas lower and middle-income families. Até porque os americanos não se identificam com a solidariedade social, muito menos com a distribuição da riqueza, como Obama a apresentou - e logo foi apelidado de "socialista" (e este é um epíteto que ninguém quer ter no país com maior devoção ao capitalismo) depois de anunciar as suas propostas para a reforma fiscal.Hoje, entrei numa loja de computadores e o dono perguntou-me de onde vinha. E se podia perguntar uma "curiosidade" (estive nos Estados Unidos em 1992 e 2001, antes dos atentados, e confesso que a curiosidade actual me está a surpreender pela positiva): quis saber tudo sobre o sistema de impostos em Portugal. E lembrou que os Estados Unidos nasceram das taxes - os ingleses "fugiram porque não aguentavam pagar" os impostos da altura, na sua versão da história. E esta será a explicação para que cada site e cada jornal faça uma comparação entre Obama e McCain - revelando o que será das taxes com cada um deles na Casa Branca.Em Manassas, a cerca de cem quilómetros de Washington DC e onde existe um "little Portugal", como são apelidadas pelos emigrantes as comunidades portuguesas de alguma dimensão, as eleições não eram um tópico recorrente de conversa, até porque muitos dos que podem votar ainda não decidiram se o farão. Mas, trazendo o assunto à conversa, na festa do passado sábado que reuniu cerca de cem pessoas, logo as taxes centraram o debate, com uma clara linha divisória entre os trabalhadores por conta de outrem, que apoiam a medida de Obama e acham que a Administração podia ter evitado a crise, e os empresários por conta própria, que tendem a ser mais pró-republicanos e desculpam o governo pelo desgoverno individual.

Algumas coisas sobre o meu poiso em DC

A casa tem aí uns 30 m2, a uma renda de 1900 dólares por mês! Estava equipada (o frigorífico é gigante, para lá caberem os king sizes todos...), mas não mobilada. As janelas têm, por incrível que pareça, redes mosquiteiras. É que o Potomac River é um autêntico pântano e, em tempo de calor, os mosquitos invadem o place. Ainda bem que vim no frio - porque se é para ter mosquitos que seja em África e a poder apanhar malária! O edifício, com uma dezena de small apartments por piso, tem uma cave comum, e escura, com ginásio (melhor dizendo, com máquinas solitárias de exercício) e lounge (big screen, sofás, café). E as máquinas de lavar roupa como nas séries.
Mas o detalhe que mais me incomoda são as sanitas. São daquelas que estão o tempo todo cheias de água... e, se é bem verdade, que não respingam, o que é facto é que a descarga não é um espectáculo bonito de se ver. Além disso, o tampo tem uma aba direita e uma aba esquerda e deixa um buraquinho no meio que também não entendo para que serve a não ser para nos envergonhar quando lá deixamos cair um pinguinho...

Ainda há quem diga não

A livraria Books-A-Million foi a única das instituições contactadas
pelo procurador Kenneth Starr que se recusou a fornecer detalhes sobre as compras de Monica Lewinsky. No caso, sobre os livros que a estagiária da Casa Branca tinha adquirido. Diz-me o que lês, direi se tens ar de quem faz blowjobs na Sala Oval. Estamos sempre a aprender com estes americanos. Principalmente com os da Books-A-Million.

A minha estação de metro é Walt Whitman


Up and down Dupont Circle, a estação de metro mais próxima de casa. A toda a volta da parede, Walt Whitman. «I sit by the restless all the dark night.»

terça-feira, 21 de outubro de 2008

O Outono é lindo!!!





Fui comer a um eritreu

Não há nada de mais cosmopolita do que poder dizer 'raptaram-me para ir comer a um restaurante eritreu'. DC está cheio de restaurantes etíopes. Mas o Dahlak é eritreu - que é como quem diz a mesma coisa, mas ao ladinho. A comida é excelente. Tudo à manápula, nada de talheres. Primeiro comemos chamuças (vegetais ou carne) - para mim super picantes, coisa pouca para alguns e principalmente algumas de vocês. Em seguida, mandamos vir uma combinação de porções diferentes, todas dispostas em cima de taita ou ingera, uma massa entre o crepe e a panqueca mas com uma cor a atirar para o cinzento: estufado de carne de borrego (o melhor de todos); frango com molho; creme de lentilhas; espinafres com batata; salada; queijo de cabra. No final... ainda bem que o carro estava longe e era preciso ir buscá-lo. Ainda estou cheia, mas, pelo menos, não fiquei a arrotar como com a cebola da sopa...

Frontalidade

Uns pensam. Outros têm coragem de o dizer.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Imagem e pregão do dia


Obama buttons, Obama buttons, Obama buttons!

Já vos disse que vou a Nova Iorque e a Chicago???

Tenho de confessar que estes americanos, os de Washington pelo menos, estão a surpreender-me. As pessoas com quem me tenho cruzado são extremamente simpáticas e interessadas (e já ninguém pergunta onde é Portugal). Toda a gente é muito disponível, responde aos e-mails enquanto o diabo esfrega um olho, dá telefones de casa e telemóveis como se fôssemos grandes amigos. E quer saber dos meus planos, sem intrusão. E ainda bem que tenho partilhado. À custa disso, tenho alojamento em Nova Iorque (estão a ver o Empire State Building?? É aí!!!) e, para o big day, em Chicago! Obama's gonna be there. E eu também. Outra coisa genial são as multi-way trips. Vou voar de DC para Chicago para NY por 200 euros! Viva os países gigantes, fora os rectângulos no cu da Europa! Só falta uma casinha em São Francisco e outra em New Orleans para completar o círculo. Mas isso é para mais tarde. Uma coisa de cada vez.

Obesos e venti

Digam o que disserem, aqui há mais gente gorda. Aliás, ao que comem por aí podia ser ainda pior. São descomunais... desproporcionais... Hoje conheci uma gaja, que devia ser mais nova do que eu, em cuja perna cabiam dez das minhas... Perdi logo o apetite. E lembrei-me de ter perdido seis quilos da primeira vez que estive nos Estados Unidos e fiquei em casa de uma família americana. Tinha 17 anos e regressei a Portugal com 39 quilos.
Não vai acontecer outra vez, até porque com esta idade e tendo deixado de fumar (parties excluídas) tenho é de ter cautela para não acontecer exactamente o contrário. A Rita, na casa de quem durmo num colchão de insuflar, diz que ganhou logo cinco quilos nos primeiros tempos. Agora que os perdi sem fazer esforço só me faltava ir buscá-los outra vez... Ela diz que acha que é do leite e eu fiquei muito contente por não beber.
Bem, o que é certo é que tudo tem um cheiro que nos activa o palato, mas, ingerida a coisa, a digestão é péssima e a fome aparece pouco tempo depois. Hoje fui à Faculdade de Direito da Howard "historical black college" (leiam A Mancha Humana, de Philip Roth), onde foi inaugurada uma unidade de banco de tempo e, ao fundo, duas mesas tinham pilhas de pizzas e várias garrafas de Coca-Cola e Sprite tamanho gordo para que os alunos presentes se alimentassem antes da sessão. Ughhh... Se comi? Claro... Uma pequenina, porém... E fiquei a arrotar todo o dia...
Nós nem sequer temos os mesmos tamanhos nas nossas prateleiras de supermercado. Aliás, tudo aqui é gigante. Só um exemplo, o café grande do Starbucks é o tamanho médio. Porque ainda há o venti! As cookies têm o dobro do tamanho. Os carros são autênticas banheiras. Têm pinta, mas afastam alguém da minha estatura (a mais com as mudanças automáticas e com os semáforos localizados na esquina do passeio em frente... too much new information...) de arriscar a estrada. O que é pena, porque este país é on the road.

domingo, 19 de outubro de 2008

Aceitam-se candidatos


A disputa

Há mais vida para além de Obama e de McCain, de Biden e de Palin. Nas ruas de DC, no Dupont Circle, há dois blacks em disputa. Por um street spot. Get your own! Why, do you own this one?

Lost in translation

Como não podia deixar de ser tive problemas com o computador. Dizia que não tinha sem fios o f.d.p. e eu a olhar para ele e a pensar 'tás-me a foder e eu a ver'... Lá teve de ser: loja, gente entendida, o que caralho se passa com esta merda? Técnico chinoca, amarelo, quase-Presidente (o primeiro poiso do Obama após o Hawaii foi a Indonésia, onde por certo se cruzou com o Osama, que ainda há-de ser capturado com uma t-shirt a dizer I Love Obama e foder esta merda toda...). Aí umas cinco tecladas depois e uns três minutos passados e havia uma lista interminável de wireless... Era só escolher. E encolher... que é o que fazem as pessoas que se sentem estúpidas como uma porta. Anyway: quanto lhe devo? Nada, só uma tip. Agora perdi-me, amarelinho... Que raio é uma tip? Há uma moeda nova e eu não sabia? E equivale a quanto? Toma lá cinco dólares.

Não me converti (ainda)

Continuo descrente, mas não perco uma oportunidade para abrir o espírito à conversão. Até porque isto do ateísmo é difícil, pá, com a vantagem de que ninguém nos penaliza por olharmos para o lado (ou para baixo, ou em frente, ou whatever)...
Além disso, há poucas coisas de que goste mais do que ser desviada do meu caminho (ou daquilo que eu pensava ser o meu caminho). Ou seja, gosto de imprevistos. E o Tony aparecer-me a frente, com o seu fato mórmon-upper-class e o olhar meio esgazeado de quem descobriu a verdade e toda a verdade e nada mais do que a verdade e de repente fica com um sorriso estúpido para o resto da vida, foi um imprevisto.
Barram-me o caminho e eu paro para escutar. Igreja da Cientologia. Tom Cruise (eu sei que há mais, mas este há-de vir-me sempre à cabeça, ou talvez a outra parte do corpo, em primeiro lugar, porque pode fazer muita estupidez na vida que há-de ser o meu ídolo de adolescente para toda a vida como só os adolescentes sabem ser). Why not? Vamos lá ouvir esse filme proselitista. O Tony, grego, apresenta-me à Sheila, loura platinada com o mesmo sorriso estúpido. Antes ainda diz que a cabeça é mais do que uma "bunch" de composto químicos. Muito mais interessante do que saber de que é composta a mente, é saber o que ela pode fazer. T-a-r-a-r-a-r-a-r-a-r-a (a musicar como os x-files).
Sente-se no sofá, por favor. Às florinhas, tipo cortinados antigos. Aliás, tudo às florinhas e aos estampados campestres. E alcatifa... brrrrrr... E uma mosca... Que nojo. Será que veio da mente de alguém? A Sheila a cada frase metia um elogio ao fundador da Cientologia, L. Ron Hubbard (há por aí um escritor nos escaparates das livrarias com um nome muito parecido). Que tinha um gabinete pessoal em cada templo de Cientologia. Desde que ele morreu, em 1986, fechados e inviolados.O filme, Dianética, é sobre o mais recente livro de Hubbard, que já morreu faz 20 anos mas continua a escrever best-sellers sobre a mente, essa desvairada que não pára de nos surpreender e dá pano para mangas, ou para livrinhos.
O Tony já me tinha avisado que o filme, e o livro, existiam em português, mas pensava que era do Brasil. Nada disso, tuga mesmo. Weird, dado que a Cientologia mais perto fica em Espanha. E esperemos que assim continue, não vão os senhores da IURD ficar sem emprego neste tempo de crise...
O filme. Por que é que as pessoas fazem coisas sem sentido? Bom resumo, Sheila. Também gostava de saber. Mas tenho cá para mim, com o passar dos anos, que é melhor viver do que perder tempo a encontrar explicações.
Então mas e agora o que querem de mim, digam lá... A Sheila queria fazer-me um teste de stress, ou então um de personalidade, ou ainda um de QI (sabe que pode aumentá-lo? e quem lhe disse que queria, pensei eu?). Eu lá fui dizendo que não valia a pena mas que gostava muito de ver o resto do edifício. Não sei se estava à espera de encontrar o Tom, talvez numa cena tipo Eyes Wide Shut... Talvez para a próxima visita.
Fiquei a saber que o senhor Hubbard inventou o 'meter', abreviatura carinhosa para electropsychometer (pena não ser psychokiller), que encontra áreas da mente que poderão causar problemas. E resolve-os mesmo antes de existirem. Diz a Sheila que a Cientologia tem "tens of millions" de adeptos. Muito exacta esta malta adepta da mente e seus derivados.

O alcoolizado, a esplanada e as eleições

Era uma vez um domingo solarengo (embora já com um frio de cortar à faca, isto vai ser bonito, vai) e uma esplanada onde as mesas estavam todas cheias de lagartixas tardias de fim de Verão. Até que passa um bêbado. Que estanca e pergunta, na sua voz enrolada:
- Everyone voting for Obama raise your hand!
Nada (só o black ao meu lado a sugerir Obama parece não ter ali muitos adeptos)
- Everyone voting for McCain raise your hand!
Insiste o bêbado. Nada outra vez. Ufa... Não estava, afinal, num domínio republicano. Apenas num sítio de lagartixas tardias de fim de Verão preocupadas unicamente em assimiliar cada raio de sol.
Moral da história: por estas alturas, até os alcoolizados estão é preocupados com as eleições. Eu cá gostava de ver um bêbado a questionar as medidas do Sócrates. Ok, só uma. E podia até ser o Magalhães, que tem nome sonante.

Sunday is a working day

Pois é, nesta terra trabalha-se sete dias por semana. Qual descanso, qual quê! Onde é que acham que nascem as oportunidades? Trabalhando, pois está claro. No duro, a receber salários mínimos forretas e a depender das gorjetas para equilibrar o orçamento. Sendo que mais valia incluírem logo este extra na conta, porque a malta não é de cá e não adivinha. E além disso tem o hábito enraizado de deixar uma contribuição apenas quando se sente mesmo, mesmo, mesmo satisfeita. Assim como põem o imposto sobre o valor inicial, bem que podiam dizer logo quanto devemos dar à senhora que trouxe a caneca de chá preto (é melhor começar a adaptar-me a alternativas ao belo do café, que sucks!, e mesmo do cappuccino, que me dá cabo da barriga...) para que ela possa sobreviver ao fim do mês (isto, claro, se não tiver nenhum problema de saúde, e nem precisa de ser muito grande, mas isso é tema para uma crónica só). Até porque eu nunca fui boa a matemática e sei lá de repente o que são 15 ou 20 por cento...

PS - Nem tudo é mau em trabalhar toda a semana. Está tudo aberto ao domingo, cafés, livrarias, supermercados... O que é óptimo para quem anda por cá só a ver as vistas mas pode voltar para a bela da Europa e descansar ao domingo.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Definitivamente, este é um bairro Obama-Biden





Segunda lição

Ainda voltando ao efeito imediato do jetlag. Ir fazer compras, pela primeira vez, a um supermercado é uma experiência perturbadora… Nada se vende sozinho. Ou se compra mais um e o terceiro é à borla, ou se leva dez e se poupa dois dólares, ou se leva dois da mesma marca pelo preço de um equivalente de outra… Enfim, são milhares de promoções, papéis coloridos que sobressaem nas prateleiras a alertar os olhos para o fabuloso mundo dos descontos. Se já costumo passar imenso tempo num hipermercado português, aqui passou das marcas. Podem dar-me apenas uma coisa de cada uma das coisas que eu quero? Can I please have no choice? Please?!

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

O português da Johns Hopkins


Não andava propriamente à procura dele, mas todos sabemos que o ditado do “um português em cada lado” é baseado em factos reais. Fui espreitar o departamento de Relações Internacionais da Johns Hopkins University (50 mil euros ao ano...). Maurice, o porteiro-segurança, não me deixou passar da entrada, mas quis saber de onde vinha eu. E, após a resposta e sem aviso prévio, discou freneticamente o telefone enquanto me comunicava que havia um português no edifício. Foi assim que conheci o Pedro Matias e, minutos mais tarde, a sua mãe, Célia. O Pedro está cá há sete anos e é funcionário administrativo da Johns Hopkins. ‘Está óptimo’, diz a mãe, que trabalha na limpeza de casas. Pedro diz que a sua família deve ter sido das primeiras portuguesas em Washington. ‘Aqui ganha-se mais – uma limpeza custa 60-70 dólares em Nova Iorque e aqui sobe para os 100’, compara Pedro. Mas tanto filho como mãe dizem que a situação no país piorou. E não acreditam que vá melhorar. Muito menos que o próximo inquilino da Casa Branca faça alguma diferença. ‘É tudo a mesma coisa. Em casa sem pão, todos ralham e ninguém tem razão’, diz Célia. Ambos votarão a 4 de Novembro. E em Obama. Despedem-se com um muito português: ‘Se precisar de alguma coisa, a casa é humilde, mas dá sempre para mais um e quem coze três batatas também coze quatro.’ Portanto, já está combinada uma ida ao segundo little-Portugal, depois de New Jersey: Manassas, Virgínia.

Do you have a minute for the democrats?

Primeiro pé nas ruas de Washington. Mal deixei a R Street, onde estou alojada, e entrei na 17th Street, para o meu primeiro cappuccino (há que arranjar alternativas bebíveis à falta de um café decente…), uma jovem perguntou-me se tinha “um minuto para os democratas”. Expliquei que não era americana e, portanto, não votava. Mas que tinha o minuto, claro. Aliás, todo o tempo do mundo para ela me explicar o que queria exactamente com aquele pregão. Angariar fundos. Assim, às claras e à luz do dia. Impossível à mente europeia não estranhar. Aqui é normal – tão normal como perguntar ao cliente que paga as compras no supermercado se não quer aproveitar para deixar um contributo para a luta contra o cancro. Verdade que já vamos tendo um pouquinho disto, mas estão a ver sete portugueses por dia (os números são da jovem, que não quis partilhar o nome) a darem um minuto e uma generosa contribuição aos democratas? Don’t think so. ‘Então e não me querem convencer a votar em Obama?’, perguntei eu. ‘Não, nós não convencemos ninguém’, garantiu ela. Na verdade, explicou, dirige-se aos já convencidos. Passa um que já o foi. ‘Costumava ser democrata. Mas isso foi antes de Obama…’ Com os fundos deste já não contam. Ela, diz a própria, é um elemento da “campanha agressiva” de Barack Obama. De recolha de fundos, leia-se. Ainda lhe pedi um exemplar da folhinha, mas ela disse que não podia oferecer-me uma. Pena. Quando voltei a passar pela rua, duas horas depois, ela ainda lá estava. A recolher o dízimo de democratas.

I’m gay and I’m proud

O bairro onde estou é o mais gay friendly da cidade mais gay friendly dos EUA. Paro no Trio’s for a drink – há coca-cola hour por estas bandas. Ao lado, dois homens abertamente gays metem conversa comigo. Nos intervalos continuam a comentar os gajos que vão passando – he’s cute; he must not be straight, there’s something in him; 25 is too young, I’m not going there anymore; oh, por dios, suspiram). E as gajas também – ‘Sabes como se reconhece um gay? A primeira coisa para a que olha numa gaja são os sapatos. Oh, the shoes!’ Ele sabe o que diz.

Primeiro olhar







Pântano. Blocos e blocos (sempre cores suaves, pastel, creme, bege) em esquadria. Avenidas largas. Silêncio (os carros automáticos devem explicar a diferença em relação a Lisboa, que tem mais ou menos a mesma dimensão e a mesma gente). R Street. Bairro porreiro – Greenwich Village com Notting Hill, mas ainda longe do charme de qualquer um deles. As pessoas são simpáticas – passa uma senhora que diz que gosta da minha camisola. Igrejas por todo o lado, que anunciam os pastores e os sermões à entrada – ‘what do you stand for?’ é a escolha dos baptistas, ‘are you wealthy?’ é a opção dos metodistas. Ambos domingo, lá estarei.

Primeira lição

Não acreditar nos senhores da Continental Airlines quando dizem que, em menos de duas horas, é possível: chegar ao aeroporto internacional de Newark, implorar ajuda com o olhar ao funcionário que distribui os ‘não-americanos’ com um porta-chaves com a bandeira de Portugal e sem arriscar falar-lhe em português, passar pela Imigração e pela Alfândega, re-chekinar as malas, sorrir a um black que faz rap (connection flights to the left, exit to the right), correr aeroporto fora com mala do computador e mochila com uma data de tretas, tudo isto com os cordões desapertados porque nos obrigam a tirar os sapatos mesmo quando estes não apitam no controlo, metro interior pelo meio e um sem fim de escadas rolantes e não perder o voo de ligação para Washington. Yes, I can! Mas era escusado, porra!

A isenção de visto

Já tinha ouvido dizer, mas ter de ler e preencher é toda uma outra coisa.

Os que ficam de fora (pelo menos se forem honestos):
- pessoas com doença contagiosa e distúrbios físicos ou mentais e viciadas em estupefacientes
(agora a sério: quem é que, no seu perfeito juízo ou mesmo que tenha problemas mentais, vai responder a isto com um ‘sim’?? E quem não tem algum distúrbio hoje em dia?? Os agarrados ao Xanax também entram na última categoria??);
- presos ou condenados por crimes de torpeza moral (what the fuck do you mean by that??), por dois ou mais delitos puníveis com pena igual ou superior a cinco anos (sim, o que é um homicida que só matou uma vez ao pé de um assaltante à mão armada que já vai na segunda tentativa?), ou por tráfico de droga (quais seres humanos ou armas, está tudo doido?);
- quem pretende entrar nos EUA para praticar actividades criminosas ou imorais (e vai a correr dizê-lo às autoridades). Aceitam-se definições estado-unidenses para imoral; digam-me depressa antes que vá presa…
- quem está/esteve envolvido em actividades de espionagem ou sabotagem (ai saudades da Guerra Fria…), actividades terroristas (quem não está hoje em dia?), genocídio (eh lá, isto é que é pior… e não é que têm deixado passar alguns? Deve ser falta de atenção...) ou nazismo, entre 1933 e 1945 (Reabilitação social? Second chance? Are you out of your mind? E depois de 1945, já podem?);
- quem procura emprego não autorizado (sendo que os autorizados estão todos preenchidos, thanks a lot);
- quem foi alguma vez banido ou deportado (o bom filho à casa torna…);
- quem tentou frustrar ou impedir ou recusou a um cidadão americano a custódia de um filho menor do qual este detinha o poder paternal. Preciso de ajuda aqui… eles andam a ver muitos filmes, não andam?
- quem reivindicou imunidade num processo judicial (Mesmo que seja um deputado??).

Ora, lido isto, ainda falta a cláusula de desistência, na qual o signatário renuncia a quaisquer direitos de reivindicar a revisão de, ou recorrer contra, ou contestar, qualquer decisão sobre o direito de entrada nos EUA tomada por um agente do Departamento de Alfândegas e Protecção de Fronteiras (por mais idiota que este seja), excepto nos casos de asilo ou deportação. Na verdade, renunciamos a quaisquer direitos logo à entrada. Tudo isto por uma estadia máxima de três meses… A entrada no paraíso deve ser mais facilitada.

O voo

O que são sete horas e meia com uma televisão pessoal cheia de filmes e séries prontos a ser seleccionados? Querem saber a primeira escolha? Indiana, o último. I was definitely heading for America…

Antes do check-in

Why do we like their movies so much but find it so annoying when they talk?

Plane talk 3

-Women of that age have a lot of baggage.
- Yeah, and you just have to carry on…

Plane talk 2

– Can we stop at a MacDonald´s in Madagascar?

Plane Talk 1

– Sir, are you American?
– Yeah, for a long time now…