domingo, 26 de outubro de 2008

Gospel, second round

Não foi uma estreia, mas uma repetência. Vi a primeira missa de gospel no Harlem e não creio que me venha a esquecer da sensação. Gosto de gospel, acho que todas as igrejas deviam ter aquela animação, aquela vibração, aquela energia colectiva. A religião devia fazer as pessoas felizes.
A Igreja de Saint Augustine tem uma missa católica com coro gospel às 12h30 de domingo. Fui. Uma hora e meia e nem dei por isso. Até à hora do sermão, o padre não fala mais de um minuto, vai directo ao assunto e deixa o coro cantar por si. Uma banda (bateria, baixo, flauta e piano) e trinta homens e mulheres nas vozes (e que vozes, oh Lord), apenas um non-African-American. Mas a plateia de crentes era mais diversificada, embora predominantemente negra.
Saint Augustine sempre foi a igreja dos negros - foi fundada por católicos negros quando a escravatura ainda era legal e a segregação era a regra, também nos locais de culto. A escola católica que lhe nasceu associada já educava as crianças negras há quatro anos quando uma educação gratuita e pública para crianças negras se tornou lei em Washington D.C.. A zona onde fica Saint Augustine está intimamente ligada ao movimento pelos direitos dos negros - ao lado, fica o parque Malcom X. Com dois mil membros registados e outras três mil pessoas que a identificam como a sua igreja, é uma das maiores paróquias de Washington D.C..
Voltando à missa. Nos bancos estão depositados exemplares do African American Catholic Hymnal "Lead Me, Guide Me", com as letras e as pautas musicais de todas as músicas do coro. E não há quem se faça rogado na cantoria - por azar, duas criaturas branquelas com ar de mórmons (um deles, para aí com 20 anos, tinha um asqueroso anel dourado com uma pedra azul brilhante) ficaram na fila atrás da minha e era ouvi-los a desafinar (não é racismo, mas a voz tem cor, meus amigos...).
Uma interrupção: 'o dono do carro com a matrícula ... é melhor ir tirá-lo, está lá a polícia.' A Casa de Deus avisa os incautos e os incivilizados.
O sermão. Agora é que vai ser abrir a boca, pensei. Nada disso. O pastor saltita no altar, emotivo e emocionante. Fala de 'amar Deus com o coração, a alma e a mente'. E vai fazendo comparações desportivas (quem gosta de baseball, sacrifica-se para ir ver um jogo - coach Jesus wants us to sacrifice for him too) e amorosas (num date, estudamos a pessoa, queremos saber tudo sobre ela - Jesus wants us to study him too).
Estão a ver aqueles cestinhos de metal com que se tira as folhas do fundo de uma piscina? Here they come... os depósitos das esmolas. Senhores e senhoras fardados a rigor benzem-se primeiro, colectam depois. Quando damos por ela, já estenderam a 'cana de pesca' até à ponta do nosso nariz! E depois querem saber quem são os first comers. E não vale a pena esconderem-se - they know who you are... Lá nos levantámos, um a um, vim dali e dacoli e que giro que isto é.
As palmas são aceites - e até incentivadas. Em cada fila, há um mexe-corpo, aqui mais manifesto, ali mais tímido. Até as passagens da Bíblia são lidas com alguma teatralidade. E a senhora que depositou o livro sagrado no altar parecia saída de um filme: toda de preto, vestido agarradíssimo ao corpo (será que ela o conseguirá tirar?), acima do joelho, pois que a Casa de Deus não tem nada contra pernas à mostra, saltos altos, óculos de massa (pretos) e, last but not least, chapéu de coco, qual versão feminina de Charlie Chaplin. Aleluia!

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