segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Que te vaya bien!

Esta viagem chegou ao fim. E com ela este blog. Foi um prazer escrever-vos. Hasta!

México, imagens do périplo


Mérida
Uxmal
Campeche
Palenque
San Cristóbal de Las Casas
Oventic
San Juan Chamula
Zipolite
Monte Albán
Oaxaca
México, DF

Tiradas - La Bota

A Hostería La Bota foi o único sítio que repeti - e do qual faria casa, como tantos outros, se ali vivesse. Muito por Giorgina, grande conversadora. Não há quase espaços em branco na parede e o difícil é seleccionar tiradas, mas cá ficam duas:
«Este lugar es católico y no accepta propaganda evangélica ni publicidad antitabaco. De esta puerta para dentro se fuma, y se fuma mucho. Favor de no molestar con sus campañas excluyentes. Aquí no queremos terminar como cadáveres saludables. Por su atención, gracias.»
«Mirad: no doy conferencias ni tampoco pequeñas limosnas, cuando doy, me doy yo mismo.»

O pulque por um canudo

Queria muito ter provado pulque, uma bebida alcoólica célebre no México, mas as pulquerías estão em vias de extinção - e têm o monopólio da coisa (que não se vende em bares nem em garrafeiras). A minha busca teve um final cómico. O sítio indicado no Lonely Planet era a algumas calles do meu hotel, mas numa rua que me parecia um pouco deserta... e escura. Havia um talho aberto, perguntei onde era a pulquería. "Fechou", gritou-me o homem, bata branca manchada de sangue. "Por causa de meninas como você!" Hein? Como eu, como? "Menores!" Tá a brincar?! Eu estou longe de ser menor. "Mas parece!" Tão querido (como achamos estes comentários tão queridos depois dos 30 - na exacta proporção do que os detestávamos aos 20...). Só por isso entabulei conversa. O senhor lá me ensinou da arte do pulque - que se quer bebido logo, como a cerveja, também ele de fermentação, um dia-suave, dois dias-menos, três dias-forte, depois acabou-se. E acabou a perguntar-me em que hotel estava e se queria que ele lá passasse a deixar-me um copinho para provar. Não vale a pena, fica (mais) uma razão para voltar.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

O pais todo numa metropole

Todo o pais cabe na Ciudad do Mexico - e talvez por isso os locais lhe chamem simplesmente Mexico. Mas a capital e todo o pais e mais qualquer coisa. Nao e propriamente bonita, mas tem vibracao. Tem calles especializadas - por exemplo, a da Republica das Honduras (muitas tem os nomes dos paises do continente americano) tem lojas de vestidos de noiva porta sim-porta sim. Outra vende maquinas de escrever!?
Os passeios sao curtos para tanta gente, mas mesmo assim ha que os ocupar com tendas de comida - comida a serio, cozinhada em paneloes ou grelhas a ferver, e as pessoas sentam-se em banquinhos de crianca (Frida!) no meio do passeio a saborear pasteis, tortas, tortillas. A musica faz parte da cidade - ha quem se transforme em colunas de som ambulantes e deambule pelas carruagens do metro a vender cd (e dificil encontrar um que nao seja pirata), ou venda manuais de ortografia (sempre e melhor que o borda d'agua): "para todas aquellas personas que gustan por mejorar su escritura". O metro! A puta da loucura... E sempre hora de ponta (para mim, claro... nao estive numa verdadeira). E o salve-se quem puder... e couber! Ate ha areas exclusivas para mulheres e criancas. Mas e rapido. E muito barato, cada viagem sai a 13 centimos de euro!
O pais esta a entrar na "maraton Lupe-Reyes", periodo de fiesta que vai do dia de homenagem a Virgem de Guadalupe (negra de origem, mas que algumas igrejas descoloram), 12 de Dezembro, aos Reis! No zocalo - nome dado a plaza mayor, porque houve um ditador sem perna (perdeu-a numa guerra e fez-lhe um funeral de Estado... surrealismo!) que quis erguer uma praca e so lhe deixou a base (zocalo) -, ha indigenas para todos os gostos - xamas que limpam espiritos com incenso, outros que dancam para espantar o mal. Todos tem corpos esculturais e musculados e cabelos lisos e lustrosos. E ha pistas de gelo (!?) para miudos e graudos que esperam horas na fila...
Aqui a todos se chama joven! (mesmo quando se parece ja com Matusalem, ironiza Marcos...) e as meninas chama-se nena. Ha casinos militares!? Donos que deixam os caes (com nomes como Chanel...) para serem passeados em bairros chiques (que ja foram apenas populares) como Condesa. Electricistas e canalizadores que oferecem os seus servicos com uma tabuleta em redor do pescoco na praca central logo pela manha. Filas para o pequeno-almoco substancial (ovos, feijoes e o diabo a quatro) que lhes dara energia ate as tres da tarde, altura em que comeca a pausa do almoco. Os taxis sao carochas e, tal como os colectivos, verdes - verdes da cor da erva! E do amor! Ha "farmacias" especializadas em mezinhas naturais - para a menopausa, para a impotencia.
Os murais estao por todo o lado - Orozco dizia que eles sao a arte sublime porque sao para o povo - e, portanto, para todos. Sao fantasticos os de Rivera, os de Siqueiros, os de Tamayo, espalhados por varios edificios publicos da cidade. Um deles estava fechado e so abre...... para o ano! Um sujeito, ao telemovel: "donde andas, cabron?"

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

O mais surrealista dos surrealistas

Todo o Mexico cabe num quadro surrealista - Andre Breton dizia que era o mais surrealista dos paises. Assim o revelam as mais improvaveis aliancas - o catolicismo devoto com o humor face a morte, esqueletos que seguem de braco dado com a virgem -, uma paleta de cores, a obsessao pelos animais extra-terrenos, a musica, as cantinas, os jornais que trazem mortos todos os dias mas a vida continua sorridente, os mais que sao sempre os que mais dao.
De todos os sitios, a Cidade do Mexico - que aqui chamam apenas de Mexico (azteca para o umbigo da lua, que era como quem dizia o centro do mundo) ou DF (distrito federal, o tal onde cabe a gente de mais ou menos dois Portugais) - leva a premio da mais surrealista.
Ha uns senhores que vestem uniformes (quase se confundem com policias) e tocam caixas de musica a manivela pelas ruas, proporcionando momentos roufenhos, enquanto um outro companheiro estende a boina para as moedas. Ha as cantinas - os sabores, os sons, as filas a porta. Almoca-se as tres da tarde e pode durar ate as seis. Aqui, o funcionalismo publico vai das 9 as 13, pausa ate as seis e segue ate as nove da noite. As cantinas eram tradicionalmente masculinas e machistas - mas ja se veem muitas mulheres, embora raramente sozinhas. Nalgumas, pratica-se a botana - a comida vem como acompanhamento da bebida. Uma cerveza, comida. Segunda cerveza, mais comida. E por ai adiante. Tive a sorte de ir a uma cantina com Marcos Limenes, um pintor, recem-escritor, mas sobretudo uma figura apaixonante (obrigada, Pedro). Como uma cidade pode aparecer muito mais suave (o que, neste caso, nao e facil, dada a sua dimensao brutal) quando o primeiro olhar e acompanhado por um guia local. Marcos ensinou-me a colocar o dedo mindinho quando se come tacos - para cima se o taco e solido, por baixo se o taco leva mole.
Marcos nao vive na capital, mas conhece os seus segredos. Revelou-me dois, daqueles que nao constam dos guias. O estudio de Clausell, no Museu da Cidade, em que o pintor impressionista escolheu as quatro paredes para deixar os seus delirios, entre o classico e o grotesco, a sexualidade e a contencao. E o gigantesco mural de Vlady, filho do escritor Victor Serge, que chegou ao Mexico com Trotsky. Ocupa as quatro paredes (2000 m2) da biblioteca Miguel Cerdo de Tejada, entre frescos e oleos, quase sempre sobre as revolucoes - as politicas, as culturais, principalmente as das ideias.
Ja sem Marcos, fui ate a Hosteria La Bota, para acabar o dia ainda mais imersa no surrealismo. O sobrinho de Giorgina, a dona, concebeu o espaco com os frutos do seu coleccionismo. Antonio Calera-Grobet e escritor e vai deixando no cafe-bar da tia pedacos da sua vida: as primeiras botas de montanhismo e as primeiras sapatilhas estao pregadas a parede. Do tecto, vem castelos de garrafas e latas. Uma enorme cabeca de touro e outros artefactos tauromaquicos revelam um afficionado. Num canto, jaz uma televisao antiga, ainda com pernas em V. A bicicleta que Antonio sempre quis ter quando era miudo e nunca teve esta fixada ao tecto. Caes de louca fazem de centros de mesa. Ha luvas de boxe, macos de cigarros, uma virgem rodeada por luzinhas as cores a piscar, caixinhas de madeira com surpresas dentro, um livro com as memorias dos que por ali passaram (inaugurei o portugues)... Tudo cabe ali. "Conserve el agua, tome vino." E ha Giorgina - mae mexicana, pai suico, unhas vermelhas e grandes, cigarro na boca, voz rouca. Que desembrulha e volta a embrulhar os bonequinhos de madeiras pintados que vai mandar para a familia na Suica pelo Natal. Um dos sobrinhos ligou-lhe no outro dia, gritando 'ja encontrei o sitio para viver: Lisboa' Muy padre!

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Fiesta

Impressionante. Nao passam dez minutos sem um cortejo, uma procissao, uma marcha, uma manif. Sempre esta acontecendo algo. Ha sempre uma virgem por festejar e petardos para lancar. Ha sempre uma revolucao por continuar (agora sao os estudantes que enchem as ruas por todo o pais, denunciando o sistema de ensino, e falam a linguagem de Zapata, em colectivo). Esta cidade esta viva. E sempre conduzida pela musica - bandas ambulantes atravessam as ruas atras de cabecudos.
Engraxadores de sapatos emprestam o jornal aos clientes na praca central e os vendedores de baloes estao em todo o lado.
Os mercados sao arco-iris. Legumes em piramide, sumos naturais, pinatas e fantasias, queijo aos montes, gafanhotos secos em cestos de palha.
Cada edificio-atrio e uma surpresa - um cafe, uma livraria, uma galeria de arte, uma loja de artesanato (uma perdicao...). Esqueletos saltam das prateleiras ao lado das inumeras virgens e outros icones catolicos deste muito devoto pais. Ha um humor tragico sempre presente.
Ainda ha quem recorra aos telefones publicos - as chamadas passam-se para cabines sem vidros. Sarcasmo.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Oaxaca

Movida. A vida e una fiesta. Mesmo no primeiro dia da semana. Tudo desemboca na praca central e todos estao la. A catedral esta cheia de gente para a missa do fim da tarde. So uma porta separa a religiao do entretenimento. Uma banda toca a historia da musica mexicana la fora, enquanto pares de velhinhos se vao levantando para mostrar como se danca a salsa. O anfitriao, um senhor velhinho, da licoes de memoria e critica os governantes por nao se interessarem pela cultura. "Hoje poe/se Zapata ao lado de Che Guevara e ja esta", lamenta.
Um grupo de estudantes universitarios de Quimicas acaba de se graduar e irrompe pelo recinto a tocar e a dancar. Um pouco Kusturica, sempre Frida Kahlo. Dois cabecudos lideram o cortejo, que da a volta ao zocalo (o centro historico mexicano). Vendem/se baloes, observa/se um homem estatua a porta da catedral. Esta tudo na rua. E e fim da tarde de segunda. As esplanadas sob as arcadas da praca estao cheias. Namora/se: aqui namora/se muito e os casais abracam/se como se nao houvesse amanha.
Para alem dos edificios coloniais e da proximidade das ruinas de Monte Alban, Oaxaca e a capital das galerias de arte, do artesanato e da gastronomia. Jantei no La Olla, um pequeno restaurante com um santuario a virgem dentro e cujo dono e um dos que realiza os cursos de culinaria que ha por aqui. Pedi uma tabua com um bocadinho de cada uma das especialidades da zona: cecina (pedacos de carne de porco picantes), tasajo (pedacos de carne de vaca), chicharron (torresmos no Mexico!!!), queso e quesillo (este e tipo esparguete), chapulines (gafanhotos... so soube depois... aos pedacinhos no meio do tomate... sabem a folha de cha... weird...), taquitos dorados de pollo, memelitas (tortilla com feijoes e quejo fresco) e o inevitavel guacamole. Tudo acompanhado com um Montevina, Cabernet/Sauvignon feito no Mexico.
O empregado que me serviu a mesa nunca tinha conhecido ninguem de Portugal. Mas sabia que a capital era Lisboa. Alias, ia a meio do Ensaio Sobre a Cegueira quando o perdeu (Saramago, disse, em vez de Cristinano Ronaldo). Ouve/se cantar morabeza... Cabo Verde no Mexico, quao improvavel?

domingo, 30 de novembro de 2008

As camionetas

Há regras mesmo em território sem elas como é Zipolite. O tráfego faz-se em camioneta (as de caixa aberta e mais baratas, a viagem custa apenas 70 centimos), colectivo (táxis que se partilham) ou táxi individual. Há duas empresas de camionetas, as verdes e as azuis, que competem entre si como equipas futebolísticas. Gabriel, um condutor das azuis, falava freneticamente ao walkie-talkie enquanto me explicava isto e ia informando os colegas das outras camionetas azuis de que havia gente à espera no sítio tal ou de que "as verdes" andavam pela zona x ou y - chinga la madre! Uma autentica corrida de espionagem e contra-espionagem.
Auerita, chamava-me Gabriel - lá perguntei o que queria dizer e era qualquer coisa tipo parecido com ouro, pela cor da pele e do cabelo. Gostas de morenitos? Eu gosto de aueritas. Tienes novio? Claro. E onde está?, como quem nao acredita. Em Portugal. Oh, que pena, já nao posso ser o teu novio. Ou posso? Nao. Porque, nao podes ter dois? Nao. Nós aqui podemos ter duas ou tres mulheres. Pois, os homens podem... E as mulheres, também? Ri-se sem os dentes da frente. Silencio.

sábado, 29 de novembro de 2008

A um passo do paraíso

Zipolite fica muito perto do paraíso (falta só eliminar os mosquitos). O 'no pasa nada' deve ter saído daqui. Dolce fare niente é a regra. O stress ou a pressa nao entram, a vida corre devagar, quase parada. Zipolite sao, na verdade, duas ruas (mas com mercaditos, restaurantes e bares, internet). E uma imensa praia. E um imenso mar. O Pacífico, revolto como o irmao Atlantico, mas mais quente. Nada de turquesa, mar a sério. Já me faltam experimentar poucas águas no mundo - de oceanos só me faltam os frios, que dispenso.
Foram 13 horas de autocarro, uma noite mal dormida porque sempre interrompida, mais uma hora num colectivo - que, desta vez, era uma carrinha de caixa aberta que foi fechada para transportar passageiros, mas manteve o desconforto. Um pescador carregava pescado numa arca e comentava que sempre há quem compre, apanhá-lo é que está difícil. Outro seguia de ferramentas na mao para montar uma posada - 'quando cá voltar já pode lá ficar' - e comentava que Zipolite já foi mais bonito, mais limpo, com menos gente. Normalmente, os viajantes escolhem Puerto Escondido, mas o Lonely Planet já elogia estas bandas.
Estou na Posada México, uma série de cabanas de madeira em cima da praia. Cada uma tem fora uma rede e uma entrada de areia. Na praia, há espreguicadeiras e esteiras para todos, à borla. Os locais percorrem, devagar, a areia vendendo pastéis (óptimas as pescadillas), água de coco, gelados.
Hippies loiros acabaram ficando por aqui e vendem brincos feitos por eles ou tartes caseiras. Fazem-se tatuagens e piercings. O nadador-salvador - Aquila ou Aguila ou Atila, nao sei bem - ensina a surfar e arranja maconha. Aqui todos estao muito para lá de Marrequexe e as happy hours chamam-se horas felizes. Octavio Paz, o Nobel da Literatura mexicano, escreveu, nos anos 1950, uma obra antropológica sobre os mexicanos, um pouco ao estilo do Portugal-Medo de Existir, de José Gil. Nele, Paz diz que os mexicanos passam pela vida, mas nao chegam a vive-la. "No sólo nos disimulamos a nosotros mismos y nos hacemos transparentes y fantasmales; también disimulamos la existencia de nuestros semejantes. No quiero decir que los ignoremos o los hagamos menos, actos deliberados y soberbios. Los disimulamos de manera más definitiva y radical: los ninguneamos. El ninguneo es una operación que consiste en hacer de Alguien, Ninguno." Enquanto escrevo, há uma crianca a atirar-se para o chao e a limpá-lo alegremente. Na posada, há um miúdo com o cabelo loiro aos caracóis tipo anjinho, filho de um casal de italianos, se passou o dia besuntado com areia e que corria atrás das bolas de sabao para as estourar. As criancas parecem felizes aqui.

San Cristóbal de Las Casas

San Cristóbal de Las Casas é mais pobre do que as outras regioes do México e a isso nao é alheio o facto de os seus habitantes apoiarem o movimento zapatista. Mas é também isso que lhe dá uma certa altivez, própria dos fracos que enfrentam os pobres. Até os passeios estreitos e altos e com degraus (surreais para quem tem uma estatura baixa, davam-me pelo meio da perna, foi fazer ginástica o tempo todo) parecem ter sido concebidos para demonstrar que a vida nao é fácil, mas os obstáculos nao sao intransponíveis.
O TierrAdentro é dos cafés mais fantásticos - e esquerdalhas, pues - onde já estive. Nao é só um café, alberga cooperativas de artesas zapatistas, uma livraria com tudo tudo tudo o que é escritos revolucionário. E um lema magnífico (inscrito, inclusive, nos tabuleiros de papel): "Cuando una mujer avanza, no hay hombre que retroceda." Levo-o em t-shirt, que os zapatistas também tem merchandising.
Mas San Cristóbal é pobre. E por isso dói. Meninos e meninas muito pequeninas vendem animais de barro pintado, eles, e pulseiras coloridas, elas. Aparecem a cada cinco minutos, sempre diferentes, sempre pedindo dinheiro para uma tortilla.

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Zapatistas

Estava mesmo a pedi-las. Como nao ir ver os murais e os pueblos dos apoiantes de Marcos? Hora e meia numa Hyace a rezar pela vida a cada curva e ultrapassagem. Paragem em Oventic. Portao fechado com flores. Dois guardas, um de cada lado. Um homem e uma mulher. Encapuzados, lenco vermelho ao pescoco. Pode dar-me o seu passaporte? Levam-no para a comissao de vigilancia, que me chama depois. Fazem pergntas sobre o meu interesse. Digo a verdade, sou jornalista. Passo para a comissao de explicacao (do interesse, suponho...). Meia hora la fechados dentro com o meu passaporte. Brinco com um deles, ca fora, onde anda o Marcos, que gostava tanto de o conhecer? Daágargalhadas face a provocacao. Sao muito simpaticos e cordiais, mesmo quando me dizem, depois, que posso andarilhar e falar com as pessoas, mas nao tirar fotografias nem filmar. E pedem desculpa por nao me poderem responder a perguntas. As mulheres sao mais faceis de conversar. Os murais sao do melhor (e sim, tirei algumas fotos à socapa). As condicoes nem por isso. É gente pobre, a água vem por puxadas e nao há saneamento básico. Está tudo enlameado e os paramilitares tem aumentado o cerco. Nao tem terras e estao deslocados. Na escola ensinam-se os princípios do Exército Zapatista de Libertacao Nacional e há estrangeiros a aprenderem espanhol ali. "Para todos, todo."

O susto e a surpresa

Ontem andei todo o dia pelas montanhas, de pueblo em pueblo. Cheguei de noite a San Cristóbal de Las Casas e havia um teatro sobre a vida de um chefe maia, muito sonoro e visual. Queria ir mas nao tinha muito tempo para comer, de modos que fui ao El Caldero, que o Lonely Planet identifica como um sítio para comer sopas substanciais. E assim era, de facto. E rápido. Enquanto esperava, dois miúdos minúsculos e andrajosos ocuparam-me a mesa com os seus animais feitos de barro que eles próprios faziam. Só custavam 70 centimos cada um e 6 saíram a 50 pesos. Eu só tinha 200 pesos e fui trocar ao balcao, onde estava a dona da tasca. Eles partiram, eu comi e corri para o teatro. No meio disto tudo, deixei de ter 500 pesos - cerca de 35 euros! Reparei quando já estava no teatro e tirei o dinheiro para o bilhete. Fiz rewind e das duas uma: ou os tinha perdido (mas como, se estavam num saco com fecho?) ou os putos mos tinham tirado enquanto eu trocava a outra nota. Fiquei chateada, mas rapidamente concluí que é daquelas coisas que acontecem a quem viaja. De todas as formas, voltei ao El Caldero ontem à noite. Estava fechado - e eu já nos grandes filmes, queres ver que os putos estavam orquestrados com o restaurante e ficaram tao contentes com os meus 500 pesos que agora até fecharam? Voltei lá hoje, anyway. Fiz bem. Estavam lá. Aliás, estava lá o troco - eu paguei com os 500 e pensava que tinha dado 50! Eu sei... cabecinha de alho chocho... De todas as formas, o terem-me guardado o troco faz com que admire mais o país. E com que tenha uma história para contar.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Chiapas - y viva Zapata!

Cheguei ao coraÇao de Chiapas, San Cristóbal de Las Casas, uma das quatro terras da rebeliao do Exército Zapatista de LibertaÇao Nacional. No caminho - seis horas de curvas e contracurvas, dois motoristas, autocarro brasileiro, 'Deus é fiel' na porta, serpenteando por entre montanhas, impossível dormir, que remédio se nao ver o Colisao e o Marie Antoinette ainda que dobrados...-, passámos um pueblo com murais e uma tabuleta a declarar o apoio total ao EZLN.
Meninos passeiam sozinhos pela estrada, vendem água de coco. Há muitas bancas de venda de quesos. Sao muitas inidcaÇoes do que nao fazer na estrada e as multas sao equiparadas ao salário mínimo para que se perceba exactamente o que se vai perder: 90 salários mínimos. Aviso: há vibradores a 300 metros, que aqui sao as nossas pequenas lombas sonoras.
Estou a mais de dois mil km de altitude e faz um frio de rachar de noite. Mas vou ficar por aqui mais um pouco, este é também o coraÇao indígena. Pode ser que encontre o subcomandante Marcos por aí...

Manuel, o condutor de colectivo

As distâncias curtas fazem-se em colectivos, Hyaces mais sofisticadas do que as africanas e que correm mesmo sem estarem cheias, mas com os mesmos princípios básicos: o condutor grita o destino com a cabeÇa de fora da janela e todos pagam o mesmo, para onde quer que vao: 10 pesos, 70 cêntimos. Manuel faz 300 pesos (21 euros) ao dia. Na verdade, faz mais, mas tem de pagar a gasolina do carro que nao é seu e dividir o restante com o dono do veículo. Aos fins-de-semana há mais movimento, 'hoje ninguém qer ir comigo', lamenta. 'Estás sozinha? As mexicanas nao viajam sozinhas, vao sempre com o marido', esclarece. Mas nao sou a única, há mais umas quantas norte-americanas por aí.

Mochileros

Uma mochila às costas é um código, um sinal de pertenÇa a uma tribo, de aventureiros, remediados ou meros doidos que se cumprimentam quando se cruzam deitando-se olhares cúmplices. Há muito em comum - sozinhos ou em grupo, as costas doem sempre e há frequentemente um Lonely Planet debaixo do braÇo (até se comparam ediÇoes!). Quem quer estar sozinho está sozinho, quem quer jogar conversa fora há-de encontrar alguém com quem o fazer. O que importa é que estamos uns para os outros. Porque há uma coisa que nos distingue dos que passeiam com malas de rodinhas: uma mochila às costas. E isso faz toda a diferenÇa.

Palenque - welcome to the jungle

Uau, a selva! Tropical, folhas enormes, como se as víssemos à lupa. Monos (esse magnífico nome para os macacos - hey, yo soy un mono, y tu quien es, lembram-se?) que nao se mostram mas fazem-se ouvir - uma guinchadeira à noite... Dormi numa cabana no meio da selva, aos pés das ruínas maias de Palenque (selva, verde, cascatas) e quase cheguei a acordar o basco que dormia na cama ao lado (cheguei tarde como o caraÇas, nao se pode confiar nos autocarros, a minha reserva tinha ido ao ar e houve que improvisar) porque me pareciam ursos ou qualquer outra fera do género tal era gutural o som.
A estadia no Jungle Palace (:-) foi divertida. Só há cabanas espalhadas pela selva, luz mínima, pontes e um restaurante animado, com músicos. Jantei com o basco - Jon, de Vitoria, 23 anos, independentista dos pés à cabeÇa, nao se identifica nem um pouco com os espanhóis, só nao poe bombas, leva dois meses de viagem e um por fazer ainda, rica vida -, Ed - um inglês de Newcastale com um sotaque imperceptível e com muito pouco do corpo por tatuar, cabeÇa rapada e barbicha comprida, a fazer lembrar o Edward Norton no American History X, mas, vá lá, fiquei mais sossegada quando disse que gostava do Obama -, Mina - uma israelitaa vegan que nao sei o que caralho veio fazer ao México para andar a comer pizzas margaritas sem queijo! - e Sarah e Julian, duas americanas pró-Obama.

García Márquez

Havia teatro à borla em Campeche - aliás, o pueblo estava a preparar-se para receber Andrea Bocelli, também em concerto grátis, esta sexta-feira. E o instituto cultural, edifício de arcadas virado para pátio interior, estava aberto à noite e apresentava uma exposiÇao sobre as naturezas mortas de Frida e Diego. Mas voltando ao teatro. Veio uma peÇa colombiana, La Casa, a primeira adaptaÇao de Cem Anos de Solidao autorizada por García Márquez. Excelente combinaÇao de drama, humor e fantasia. "Un amor que sangra no se olvida." As gentes fizeram fila à porta.

Sabores

Nao era difícil bater os EUA e agradar quem já tem saudades da comidinha portuguesa, mas o México é um sítio interessante para o paladar. Nao é que eu seja apreciadora de picante, mas come-se bem por estas bandas. Muito à base de carne, moles (molhos de todo o tipo - guacamole é um deles, mas o mais célebre é o feito à base de chocolate preto), feijoes, arroz branco. As doses sao enormes e vêm sempre acompanhadas por fatias redondas e fininhas de um pao feito no forno semelhante ao árabe. Sou fa das quesadillas - queijo de vaca muito branco e pouco curado dentroa daquele pao. E a sopa de lima (muito comuns por aqui - há até batatas fritas de lima) que comi ainda no Yucatán é bastante original.

PS - Agora este teclado nao tem as letras todas (o que vale é o hábito, os dedos já andam sozinhos) e o A encravaaaaaaaaaaaa.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Campeche

Campeche é uma terrinha hospitaleira, a única muralhada do México, porque era muito atacada por piratas. Tem uma praca central de arcadas com um coreto no meio, casas pintadas de várias cores, um malecón onde se faz jogging logo pela manha enquanto os pescadores em velhas canoas de madeira passam no Golfo do México. Os estudantes, pequenos e graudos, andam de farda, com meias de laa, porque é Inverno (quem me dera um Inverno destes). Os estabelecimentos comerciais tem colunas de som a dar para as ruas e sempre se ouve música.
Mal cheguei, um calor do caracas, cheia de picadas de mosquitos, so queria um mergulho no mar. Apanhei um autocarro para a Playa Bonita, que fica a uns 8 km mas a quase uma hora de caminho porque para em tudo o que e sitio. Musica a bombar, motorista a tamborilar com os dedos no volante, conducao alucinante, entradas de passageiros em movimento, 'da ca as moedas depressa', indicacao dos destinos inscrita a spray branco no vidro da frente... La cheguei. Areia dura que nem pedra, mar um pouco revolto e cheio de algas (ja me tinham dito que nao era praia turquesa de postal, ao contrario do que o nome indica). Mas soube bem, pues, é o que ha. E ainda apanhei as minhas conchas para juntar a coleccao de chakras no computador do jornal.

Maria, a rezadora

Primeira viagem de autocarro on my own: Merida - Campeche. Duas horas e meia. Vim de primera, nos autocarros que tem ar condicionado e passam filmes dobrados. Mas onde viajam muitos locais. Maria, 73 anos, era a minha parceira do lado. A saida da central, atirava beijinhos, maos nos labios, ao seu 'amor' de 81 anos. Dez filhos juntos - e benze-se num sinal da cruz. Maria apresenta-se como rezadora e estava de partida para Ciudad del Carmen por compromissos religiosos. Aproxima-se a Virgem de Guadalupe (a negra) e ha que rezar. "Sabemos onde nascemos, mas nao sabemos onde vamos morrer, por isso temos de nos cuidar." E abencoou a minha viagem.

PS - O teclado piorou...

domingo, 23 de novembro de 2008

Carlitos, o macho latino

Deu-me a fome em Tulum, depois do banho de mar. Entrei no bar e conheci Carlos Modesto, que falava pelos cotovelos, perguntava e perguntava e cantava. "Sofia? Que lindo nome! Mi abuelita era Sofia. Arrogante... Mas uma senhora."
Ao som de La Cucaracha: "Vens à procura dos machos latinos? Já há poucos... mas estao todos aqui, no México." E o que é um macho latino? "É inteligente, simpático, delicado, meigo, acolhedor... No fundo, é alguém interessante. Saberás, quando te cruzares com um."
E canta Carlitos: "Yo sé cómo duele/cuando se ama/a quien no se debe."

México!

Eis as minhas primeiras impressoes deste sítio onde nao há til nos teclados...
Gente muy simpática, hospitaleira, que gosta que gostem do seu país.
Gente pequenina - já cheguei a sentir-me mesmo grande (a sério, há gente crescida que parece crianÇa). Gente com feiÇoes indígenas.
As distâncias sao grandes, as estradas cheias de obstáculos. Gente que se atravessa; várias faixas e carros que circulam na direita para virar à esquerda; carrinhas de paradas multiplas (a fazerem-me lembrar os toca-toca na guiné e os chapas em MoÇambique) a fazerem quatro piscas de repente e guinadas para a berma para deixar um passageiro ou apanhar outro; muitos topes - que é como quem diz lombas, mas nao umas quaisquer, mas sim daquelas que lixam mesmo o carro se um gajo estiver distraído; muita polícia escondida debaixo dos viadutos de automáticas em punho a mandar parar carros (o tráfico de droga nao é só em Tijuana); muito aviso na estrada - Si toma, no maneje/ A sua família espera por si.
Andei quase 400 quilómetros estes primeiros três dias, pilotada pelo meu pai, com quem me encontrei aqui (os genes...). De Cancún, onde aterrei e nem cheguei a conhecer, partimos para Playa del Carmen, estância turística cheia de gente que acha que foi ao México mesmo nunca tendo saído do hotel.
Isto é terra dos maias (que já tinham sistemas de armazenar a água da chuva e um calendário estranhamente parecido com o nosso) e, portanto, seguiram-se as ruínas de Cobá - que vimos de bicicleta - e as de Tulum - grande banho de mar na praia de água azul turquesa aos pés do castelo. No dia seguinte, Valladolid e um encontro de terceira idade na praça principal, com senhoras de 70 anos vestidas a rigor (traje típico: blusa branca bordada com flores coloridas a dar pelo joelho e por baixo saia branca rendilhada) a executarem as danças tradicionais sob as arcadas à espanhola, a famosa Chichén Itzá, um nunca mais acabar de pedras históricas e vestígios ancestrais, e ainda um mergulho no cenote ainda com estalactites da aldeia de Dzitnup. Hoje, Uxmal, mais ruínas maias, mas desta vez mais concentradas, de formas diferentes e com os terrenos cobertos de arva verde. Subimos à pirâmide e, depois do pânico das vertigens (genes, de novo...), lá gozámos a vista. Nada à volta, só verde, da cor da humidade tropical.

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

On the road again... desta vez para o México... hasta pronto...

Key West








Percebi o fascínio do Hemingway (sempre foram mais de dez anos), que a terra chamava de "Papa". São quatro horas, 43 pontes e 34 keys (cayos) de Miami até Key West (nome original Cayo Hueso, dado por Ponce de Leão, mas os americanos não perceberam o que queria dizer e aproximaram outro nome...). A viagem é de cortar a respiração.
Primeira paragem: Sloppy Joe's. O bar é enorme, de madeira, agitado, constante entra-e-sai. Afinal, é de Hemingway que estamos a falar. Venha de lá um Papa Dobles, bacardi light rum, que ele não tinha mau gosto (embora gostasse de bebidas puxaditas... à macho...). Acompanhado por conch fritters, umas bolas tipo filhoses mas rechadas com marisco. Ao som da guitarra tocada por uma versão loira do Howard Stern, que canta Crosby, Stills & Nash. E eu a dar-me conta de que sei aquelas músicas de cor por causa dos CD lá de casa...
Não foi aqui que Hemingway se inspirou para O Velho e o Mar, mas podia ter sido - a descrição do velho Santiago é branca, mas o seu espírito de pesca está também em cada um dos emigrantes vindos das Bahamas que aqui se instalaram e vivem em casinhas brancas com alpendre e cadeira de baloiço, a que os americanos chamam 'shotgun', porque uma bala atravessa facilmente da porta de trás à porta da frente, tal é a exiguidade.
Key West é paradisíaco, água transparente, easy-going, sem pressas, cheia de sentido de humor, Florida and Bahamas style combined. Até os mendigos enfeitam os cães com laçarotes e os táxis não têm outra cor para além do rosa.
É turístico, verdade, ou não tivesse o "Papa" morado cá. Mas é também o ponto mais a sul do continente dos Estados Unidos, com um marco que avisa que faltam apenas "90 miles to Cuba". Key West entrou para os meus come back places.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Empregado do ano



Alexis, no melhor restaurante desta viagem. Um bouchon lyonnais francês no bairro in de Coconut Grove. Champagne, escargots, gambás, fricassé, tarte de maçã com gelado de baunilha. E a melhor trupe de empregados de sempre. A mais de dez mil quilómetros de Paris.

Beach, a própria



A água é quente. E azul, e verde. E tem ondas. E está sol. E é Novembro. Chama-se preparação para a depressão do Inverno europeu.

Art déco








Miami Beach tem o maior concentrado mundial de art déco. E, provavelmente, de beautiful people, com tudo no sítio, bem tratadinho e bem trabalhadinho. Mas disso não tenho fotos, está tudo gravado na retina.

domingo, 16 de novembro de 2008

Criado mudo

Diz-me o Antônio, paulista de Capão Bonito, avó de Trás-os-Montes, pai português que emigrou novo, que em português do Brasil não tem mesinha de cabeceira. Tem criado mudo. Oh, língua porreta!

Time bank

«Nem tudo pode ser comprado com dinheiro e não há lealdade nem confiança no dinheiro. O banco de tempo mostra o lado humano do dinheiro.» Ana Miyares, Nova Iorque.
«O dinheiro existe para evitar a confiança nas pessoas. Agora, mais do que nunca, temos que redescobrir o que significa confiarmos uns nos outros.» Edgar Cahn, Washington.
Já estou a carburar...

sábado, 15 de novembro de 2008

é maravilhoso, é maravilhoso!

Ontem fui jantar a um dos restaurantes em downtown, com o meu senhor de Miami, o Antonio, que comentou que só em tempo de crise é que é possível reservar uma mesa para o próprio dia. A cidade tem uma vida nocturna animada. Tudo emproado e bronzeado. O empregado que nos atendeu era expressivo à americana, servir à mesa pode ser uma peça teatral. Tudo era maravilhoso, fantástico, uau, chuac e hmmm. Dava vontade de rir o homem. Comi caranguejo "Palin" do Alasca. Tinha cá umas pernas! Muito gostoso. E não tive de mexer uma palhinha para trinchar o bicho. O expressivo fez tudinho. Com luvas de médico e uma rapidez. Bebemos um vinho francês a atirar para o moscatel também bastante bom. A conta? Pois, não sei... Deve ter sido bonita, deve. Obrigada, Antonio.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Café

Custou 5 dólares, mas foi o melhor que tomei num mês (tinha espuminha e tudo). E todos deviam vir com esta apresentação. Já viram o cute piqueno copinho?

Pescar em Miami

Miami não é uma cidade fácil. Hoje andei mais de uma hora a pé até descobrir um café e tentei ir dar à baía dezenas de vezes mas nunca consegui passar das cancelas à entrada de cada arranha-céus que atracou junto à água. A baía não é de todos. Só mesmo no cantinho da ponta há um banco de madeira. E um asian-american a tentar pescar sem conseguir.

Little Havana ou Pequeña Habana




Que Miami alberga a maior concentração de exilados cubanos já todos sabíamos, mas que o espanhol se sobreponha ao inglês na maioria dos serviços é surpreendente. No café, responderam com um 'cómo?' ao meu pedido em inglês. Já com a senhora na paragem do autocarro, optei por falar espanhol, dado o seu ar claramente hispânico, e ela respondeu-me no seu torpe inglês... This not my bus, my house, beautiful area. Estou confusa...
Em Little Havana - perdão, Pequeña Habana - não há arranha-céus, só casinhas com grades brancas, como em Cuba, e uma escola Lincoln-Martí, uma união improvável na terra dos Castro. Há um passeio da fama com estrelas para Julio Iglesias e Gloria Estefan. Montes de igrejas. Bistecs, moros y cristianos, banana frita e batata doce nos restaurantes. Bom café. Os velhos cheiram a charuto e mantêm o mesmo olhar sedutor. Jogam dominó num parque, fazem barulho a la latinos. Quieres hacer una pedicure? Geladito, coco, fresa!

Rosa Parks


Esta foto foi tirada num autocarro de Miami, em direcção a Little Havana. E lembrou-me a missa na Shiloh Baptist Church a que assisti no primeiro domingo após a eleição de Obama, no Harlem, em Nova Iorque, quando a religião se fundiu com a política. O livrinho das orações dizia: "God bless this incoming Administration. Remember, Rosa Parks sat so Martin Luther King, Jr. could walk and Barack Obama ran so that our children can fly to the top."

Pessoas com quem me cruzei

Brian, o cowboy gay
Ser do Texas e ser gay não deve ser nada fácil. Mas Brian já vive em Washington DC há 25 anos e tudo é relativo. Usa t-shirt num lado e casaco de Inverno no outro. É doido por Obama e acha que ele pode mudar as coisas. "E é jovem!" Estava entusiasmado e procura desesperadamente uma forma de estar presente na entrada de Barack na Casa Branca, a 20 de Janeiro. Não percebe como é que alguém pode querer ter uma arma em casa. Nem como o Estado pode mandar executar. Nem como o aborto é ilegal. Mas também não vê como é que um casal gay pode querer casar-se. Quis saber todas as minhas impressões do país. Ficou contente quando lhe disse que tinha achado Washington uma cidade muito cosmopolita. Ele já é mais de lá. Acabou de fechar a galeria de arte que tinha em Georgetown e agora vai de férias, pensar no que quer fazer a seguir. Sem drama. Vai passar por Lisboa em breve. Foi ele que insistiu com o companheiro para darem lá um salto depois de Madrid. "Vocês já foram donos do mundo." Pois, mas isso foi há algum tempo, Brian.

O Daytona man
Não sei o nome dele, mas tinha todo o ar de um Daytona man, daqueles fanáticos por corridas de carros, de patilhas (já grisalhas), boné e blusão à aviador. Sentei-me ao seu lado para almoçar, na enésima escala em Atlanta (always Georgia on my Mind). "What a zoo!", apresentou-se, referindo-se ao frenesim do atendimento - esta gente nem sequer espera que chegue a nossa vez, já nos estão a perguntar o que queremos ainda estamos a quilómetros da máquina registadora e temos de esforçar os olhos para ler a lista e gritar o pedido (e quer tomate e alface? e maionese? e molhos disto e daquilo?). Mas voltemos ao Daytona man. "Para onde vais, darling?" Há sempre um darling, ou um sweetie. Miami. "Pois, está lá calor, venho da zona. E o furacão já passou. Vou para o frio agora", lamentou. Fez barulho com a palhinha e levantou-se. Tinha um ursinho de peluche daqueles de brinde por algum menu. Deu-mo, piscou-me o olho e disse: "Acho que ele prefere ir para Miami." Lá trouxe o urso comigo. Mais urso menos urso, já pareço uma mula de carga e já.

Tina
Era a minha senhora de Nova Iorque. conhecia-a em Manassas, naquele almoço de emigrantes tugas sobre o qual escrevi para o Público. Só estive com ela uma noite na Big City. Teve uma série de azares seguidos (espatifou o carro, apanhou uma infecção urinária, etc.) que a obrigaram a ir de fim-de-semana a Washington, onde, na verdade, sempre viveu. Tem 20 anos de DC e uns quatro de NY - os patrões mudaram e ela, cozinheira interna, foi atrás, que é melhor um job do que no job. Mas nunca se habituou à big city, apesar de viver bem no centro (201 East 36th, perto do Chrysler e da Grand Central, não longe do Empire State Building). Tem 50 anos e já deve ser difícil fazer amigos. Pareceu-me sozinha.

Phillip
É um activista negro de Bronzeville (que ele diz que se vai tornar em Blondesville, por causa da especulação imobiliária). Elisabeth, a minha senhora de Chicago, descreveu-o como "um homem-raça". Foi das pessoas mais apaixonadas que conheci por aqui. Não fala, reivindica o tempo todo. Uma energia só vista. Acompanhei-o no dia da votação. Ofereceu-me uma pulseira com um dos melhores slogans sociais que já vi: "Educate or Die." Nem mais, nem menos. "What more am I than a glorified street hustler?", filosofou a caminho da mesa de voto.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Mas por que é que...

... repetimos sempre actos que, já sabemos à partida, são uma asneira??? Por exemplo, por que é que eu chego a um supermercado e penso 'ah, só vou comprar umas coisinhas, por isso vou de cestinho'. Cestinho? Mas porquê??? Se há umas coisas com quatro rodas que é só empurrar??? Deve ser mais giro ir andar de cestinho às compras, deve. Principalmente para as mãos e para as costas... Rrrrrrrrr... É como quando pedimos um chá e não esperamos que arrefeça. E, claro, ficamos com aquela sensação horrível da língua queimada durante o resto do dia. Rrrrrrrrr...
Mais: quem é que se lembra de ir ao supermercado nos Estados Unidos sem ter carro (automóvel mesmo)? Ninguém no seu perfeito juízo mental. Miami não é para peões que gostam de ir às compras e carregar as cenas às costas.
É tudo escuro como breu, é só faróis a ofuscarem os olhos, não se vê vivalma mesmo às sete da tarde e não sei como não torci um tornozelo ou algo assim... Além disso, o supermercado mais perto fica a two blocks, mas aqui dois quarteirões são para aí um quilómetro... Ainda que o esforço desse para abater os pneus...
Resumindo: às vezes gostava que o gene que me distingue dos macacos influenciasse mais as minhas decisões.

Bienvenida a Miami!

Já me estavam a começar a gelar os ossos quando me pus ao caminho para sul. Logo no avião, tudo a despir-se, já em t-shirt vermelha às florzinhas brancas. E eu com as minhas três camadas e mais cachecol e botas de cano alto. Miami... Água e sol, o que é preciso mais? Um calor húmido, tropical, é um sítio-furacão, onde o vento assobia e a água tem aquela ondulação do nunca-se-sabe-o-que-vem-aí. Onde há uma chuvinha abençoada ao fim da tarde. Onde a roupa se cola à pele. Já tinha saudades de transpirar! Era mesmo isto de que estava a precisar. Eu ressaco havaiana no pé.
Vou ficar em casa de uns amigos em downtown, no meio dos arranha-céus que só de vez em quando descobrem a baía. Miami Beach fica do outro lado. Deste, atrás dos arranha-céus, fica a hispanolândia. Esqueçam os americanos loiros e branqueles - a pele escurece aqui.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Harlem, depois da eleição de Obama







E depois das Torres



A primeira vez que estive em Nova Iorque foi de passagem, na mesma viagem do gamanço no 11º ano. A segunda foi na Páscoa de 2001, pouco tempo antes do 11 de Setembro. Vi, durante duas semanas, as Torres Gémeas todos os dias, de todos os ângulos e feitios. E confesso que agora, à terceira, me pareceu estranho elas não estarem lá, apesar de já saber que não estariam.
Apanhei o metro para Downtown-Manhattan e, olhando para cima, para cada um dos muitos arranha-céus que para ali estão, não consegui identificar logo onde é que elas estavam antes de tudo acontecer. Aliás, o buraco que lá ficou parece demasiado pequeno (não tinha sequer noção de como eram os edificios à volta, porque só devo ter olhado para as duas Torres).
Confesso que esperava ver pedaços de fuselagem. Nada, limpinho. Homens-formiguinha lá em baixo a trabalhar, gruas por todo o lado. Reconstruction in progress. Há uma ponte pedonal, um best spot for a picture, um museu-memorial onde se paga dez dólares para entrar, t-shirts (We Remember, juntamente com um Calvin de sobrolho franzido à 'New York Attitude' e com o bonequinho Be Wild), bonés Ground Zero para a bunch of terror vampires que desfila por ali (incluindo eu, pois...).

domingo, 9 de novembro de 2008

My teen story...

Vou partilhar um dark secret... Vim aos Estados Unidos, pela primeira vez, quando tinha 17 anos e era uma jovem rebelde (hoje ainda sou as duas coisas, mas já tenho mais não sei quantos anos em cima, isso agora não interessa nada). 11º ano, situem-se. Eu tinha um casaco de penas - naquela altura toda a gente tinha um casaco de penas. Vim em programa de intercâmbio, com a grande vantagem de não ter tido de receber a americana cheerleader em casa de quem fiquei três semanas. Basicamente, vim em substituição.
Fiquei com uma típica família americana em New Jersey - tão típica que não almoçavam nem jantavam, abriam pacotes de batatas fritas ou outras merdas parecidas e comiam-nos até ao fim. Emagreci seis quilos em três semanas - era suposto alimentarem-me e eu pura e simplesmente não conseguia comer uma espécie de almôndegas que tiravam do congelador directamente para o leite ao pequeno-almoço. Ughhhhh... Andei a maçãs, que era a única fruta que havia lá por casa. Resultado: 39 quilos aos 17 anos. E uma data de prendas roubadas. Ah, pois é, bebé... Eu gamei (isso, furtei, abafei, fiz desaparecer) nos States (nomeadamente em Nova Iorque) e não fui presa. Aliás, era bem boa naquilo... Com câmaras e tudo. Casaco de penas e ar teen, estão a ver? Bolsos cheios de pins, ímans, postais (acho que cheguei a surripiar um ursinho de peluche...).
Aliás, o meu 11º ano foi só gamanço - já em Itália (antes ou depois dos States? Estou a ficar senil), também em intercâmbio, lembro-me de limparmos (claro que era uma cena de grupo) uma loja de vidro de Murano e de passarmos postais tipo discos voadores de uns para os outros na ruas de Veneza.
Bons tempos... alguém se lembra? Ou ninguém se quer lembrar? Eu gostei de ser teen. Verdade que hoje podia estar no corredor da morte, que aqui não se pode beber até aos 21 mas para ser preso basta ter pouco juízo, ou ser preto.

Gourmet Pretzels

Se há coisa que os Estados Unidos têm de bom são as companhias internas. Não que elas sejam uma maravilha da natureza, mas há muitas. Logo, os preços baixam. Mais, há mais hipóteses do que a ida ou a ida e volta, há a multi-way trip, que compensa quando se quer ir para mais do que um destino.
Fiz DC-Chicago-NY por 200 euros. Sempre com a AirTran, que ainda nos oferecieu de beber e um snack de Gourmet Pretzels. No pacote, aproveita para publicitar a própria marca.
Eating instructions:
1. Think about our wonderful low fares at airtran.com as you open packet;
2. Place a pretzel in mouth. With each crunch, be reminded of our low fares;
3. As you swallow, remember again just how low the fares are;
4. Repeat until pretzel packet is empty;
5. Keep empty packet to remind yourself to book at airtran.com, where you'll always find our lowest fares.
Foi o que fiz. Agora vai directinho para o lixo.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

The Big City


Nova Iorque é grande - parece e é. Transpira energia, dinâmica, azáfama constante. Está sempre em movimento. Começa-se a andar mais depressa nem que não se queira. As hipóteses de atropelamento por outros seres humanos são muitas. Os encontrões e cotoveladas inevitáveis.
O metro é um labirinto de cores, linhas, direcções. Não cabe um pentelho entre as carruagens e as plataformas (e, muitas vezes, entre a parede e as carruagens), o que o torna claustrofóbico. E há os local e os express - indicações só para entendidos. O engano acontece mais tarde ou mais cedo.
É também a cidade do consumo - deve ser aquela onde mais se gasta e também onde mais lixo se produz, a avaliar pelas ruas cheias de sacos nos passeios à noite. Aqui o consumismo não é um apelo, é um íman. Puxa-nos todo o tempo. É difícil resistir. E, se não se está com ele, está-se contra ele - os muitos sem-abrigo estão lá para nos lembrar disso.
Nova Iorque tem o Central Park - e todas as cidades deviam ter um Central Park tão lindo como este no Outono. Os caminhos estão cobertos de folhas amareladas, acastanhadas, avermelhadas... E, não se deixem iludir pelo senhor que corria só de calção tipo boxeur (portanto, quase nu) que tinha acabado de passar por mim e, dali a cem metros, já tinha dado a volta ao parque e voltado a passar por mim, Central Park é um pulmão a sério (embora o único).
E depois há Greenwhich Village - os bares, os restaurantes (um brasileiro!! carnonga a sério e puré de batata!!), os clubes de jazz (dois velhinhos, Cecil Taylor e Tony Oxley, improvisaram e experimentaram no Village Vanguard - eu continuo mais fã do clássico, mas há que abrir as orelhas). A cidade que nunca dorme. E que acorda cedo. Que vive como se não houvesse amanhã.
Resumindo, New York continua a ser uma perdição - e, para mim, a música do Sinatra na perfeição - e um daqueles sítios onde não sei bem se viveria, mas ao qual gostaria de voltar a voltar.