quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Pessoas com quem me cruzei

Brian, o cowboy gay
Ser do Texas e ser gay não deve ser nada fácil. Mas Brian já vive em Washington DC há 25 anos e tudo é relativo. Usa t-shirt num lado e casaco de Inverno no outro. É doido por Obama e acha que ele pode mudar as coisas. "E é jovem!" Estava entusiasmado e procura desesperadamente uma forma de estar presente na entrada de Barack na Casa Branca, a 20 de Janeiro. Não percebe como é que alguém pode querer ter uma arma em casa. Nem como o Estado pode mandar executar. Nem como o aborto é ilegal. Mas também não vê como é que um casal gay pode querer casar-se. Quis saber todas as minhas impressões do país. Ficou contente quando lhe disse que tinha achado Washington uma cidade muito cosmopolita. Ele já é mais de lá. Acabou de fechar a galeria de arte que tinha em Georgetown e agora vai de férias, pensar no que quer fazer a seguir. Sem drama. Vai passar por Lisboa em breve. Foi ele que insistiu com o companheiro para darem lá um salto depois de Madrid. "Vocês já foram donos do mundo." Pois, mas isso foi há algum tempo, Brian.

O Daytona man
Não sei o nome dele, mas tinha todo o ar de um Daytona man, daqueles fanáticos por corridas de carros, de patilhas (já grisalhas), boné e blusão à aviador. Sentei-me ao seu lado para almoçar, na enésima escala em Atlanta (always Georgia on my Mind). "What a zoo!", apresentou-se, referindo-se ao frenesim do atendimento - esta gente nem sequer espera que chegue a nossa vez, já nos estão a perguntar o que queremos ainda estamos a quilómetros da máquina registadora e temos de esforçar os olhos para ler a lista e gritar o pedido (e quer tomate e alface? e maionese? e molhos disto e daquilo?). Mas voltemos ao Daytona man. "Para onde vais, darling?" Há sempre um darling, ou um sweetie. Miami. "Pois, está lá calor, venho da zona. E o furacão já passou. Vou para o frio agora", lamentou. Fez barulho com a palhinha e levantou-se. Tinha um ursinho de peluche daqueles de brinde por algum menu. Deu-mo, piscou-me o olho e disse: "Acho que ele prefere ir para Miami." Lá trouxe o urso comigo. Mais urso menos urso, já pareço uma mula de carga e já.

Tina
Era a minha senhora de Nova Iorque. conhecia-a em Manassas, naquele almoço de emigrantes tugas sobre o qual escrevi para o Público. Só estive com ela uma noite na Big City. Teve uma série de azares seguidos (espatifou o carro, apanhou uma infecção urinária, etc.) que a obrigaram a ir de fim-de-semana a Washington, onde, na verdade, sempre viveu. Tem 20 anos de DC e uns quatro de NY - os patrões mudaram e ela, cozinheira interna, foi atrás, que é melhor um job do que no job. Mas nunca se habituou à big city, apesar de viver bem no centro (201 East 36th, perto do Chrysler e da Grand Central, não longe do Empire State Building). Tem 50 anos e já deve ser difícil fazer amigos. Pareceu-me sozinha.

Phillip
É um activista negro de Bronzeville (que ele diz que se vai tornar em Blondesville, por causa da especulação imobiliária). Elisabeth, a minha senhora de Chicago, descreveu-o como "um homem-raça". Foi das pessoas mais apaixonadas que conheci por aqui. Não fala, reivindica o tempo todo. Uma energia só vista. Acompanhei-o no dia da votação. Ofereceu-me uma pulseira com um dos melhores slogans sociais que já vi: "Educate or Die." Nem mais, nem menos. "What more am I than a glorified street hustler?", filosofou a caminho da mesa de voto.

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