Zipolite fica muito perto do paraíso (falta só eliminar os mosquitos). O 'no pasa nada' deve ter saído daqui. Dolce fare niente é a regra. O stress ou a pressa nao entram, a vida corre devagar, quase parada. Zipolite sao, na verdade, duas ruas (mas com mercaditos, restaurantes e bares, internet). E uma imensa praia. E um imenso mar. O Pacífico, revolto como o irmao Atlantico, mas mais quente. Nada de turquesa, mar a sério. Já me faltam experimentar poucas águas no mundo - de oceanos só me faltam os frios, que dispenso.
Foram 13 horas de autocarro, uma noite mal dormida porque sempre interrompida, mais uma hora num colectivo - que, desta vez, era uma carrinha de caixa aberta que foi fechada para transportar passageiros, mas manteve o desconforto. Um pescador carregava pescado numa arca e comentava que sempre há quem compre, apanhá-lo é que está difícil. Outro seguia de ferramentas na mao para montar uma posada - 'quando cá voltar já pode lá ficar' - e comentava que Zipolite já foi mais bonito, mais limpo, com menos gente. Normalmente, os viajantes escolhem Puerto Escondido, mas o Lonely Planet já elogia estas bandas.
Estou na Posada México, uma série de cabanas de madeira em cima da praia. Cada uma tem fora uma rede e uma entrada de areia. Na praia, há espreguicadeiras e esteiras para todos, à borla. Os locais percorrem, devagar, a areia vendendo pastéis (óptimas as pescadillas), água de coco, gelados.
Hippies loiros acabaram ficando por aqui e vendem brincos feitos por eles ou tartes caseiras. Fazem-se tatuagens e piercings. O nadador-salvador - Aquila ou Aguila ou Atila, nao sei bem - ensina a surfar e arranja maconha. Aqui todos estao muito para lá de Marrequexe e as happy hours chamam-se horas felizes. Octavio Paz, o Nobel da Literatura mexicano, escreveu, nos anos 1950, uma obra antropológica sobre os mexicanos, um pouco ao estilo do Portugal-Medo de Existir, de José Gil. Nele, Paz diz que os mexicanos passam pela vida, mas nao chegam a vive-la. "No sólo nos disimulamos a nosotros mismos y nos hacemos transparentes y fantasmales; también disimulamos la existencia de nuestros semejantes. No quiero decir que los ignoremos o los hagamos menos, actos deliberados y soberbios. Los disimulamos de manera más definitiva y radical: los ninguneamos. El ninguneo es una operación que consiste en hacer de Alguien, Ninguno." Enquanto escrevo, há uma crianca a atirar-se para o chao e a limpá-lo alegremente. Na posada, há um miúdo com o cabelo loiro aos caracóis tipo anjinho, filho de um casal de italianos, se passou o dia besuntado com areia e que corria atrás das bolas de sabao para as estourar. As criancas parecem felizes aqui.
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