domingo, 30 de novembro de 2008

As camionetas

Há regras mesmo em território sem elas como é Zipolite. O tráfego faz-se em camioneta (as de caixa aberta e mais baratas, a viagem custa apenas 70 centimos), colectivo (táxis que se partilham) ou táxi individual. Há duas empresas de camionetas, as verdes e as azuis, que competem entre si como equipas futebolísticas. Gabriel, um condutor das azuis, falava freneticamente ao walkie-talkie enquanto me explicava isto e ia informando os colegas das outras camionetas azuis de que havia gente à espera no sítio tal ou de que "as verdes" andavam pela zona x ou y - chinga la madre! Uma autentica corrida de espionagem e contra-espionagem.
Auerita, chamava-me Gabriel - lá perguntei o que queria dizer e era qualquer coisa tipo parecido com ouro, pela cor da pele e do cabelo. Gostas de morenitos? Eu gosto de aueritas. Tienes novio? Claro. E onde está?, como quem nao acredita. Em Portugal. Oh, que pena, já nao posso ser o teu novio. Ou posso? Nao. Porque, nao podes ter dois? Nao. Nós aqui podemos ter duas ou tres mulheres. Pois, os homens podem... E as mulheres, também? Ri-se sem os dentes da frente. Silencio.

sábado, 29 de novembro de 2008

A um passo do paraíso

Zipolite fica muito perto do paraíso (falta só eliminar os mosquitos). O 'no pasa nada' deve ter saído daqui. Dolce fare niente é a regra. O stress ou a pressa nao entram, a vida corre devagar, quase parada. Zipolite sao, na verdade, duas ruas (mas com mercaditos, restaurantes e bares, internet). E uma imensa praia. E um imenso mar. O Pacífico, revolto como o irmao Atlantico, mas mais quente. Nada de turquesa, mar a sério. Já me faltam experimentar poucas águas no mundo - de oceanos só me faltam os frios, que dispenso.
Foram 13 horas de autocarro, uma noite mal dormida porque sempre interrompida, mais uma hora num colectivo - que, desta vez, era uma carrinha de caixa aberta que foi fechada para transportar passageiros, mas manteve o desconforto. Um pescador carregava pescado numa arca e comentava que sempre há quem compre, apanhá-lo é que está difícil. Outro seguia de ferramentas na mao para montar uma posada - 'quando cá voltar já pode lá ficar' - e comentava que Zipolite já foi mais bonito, mais limpo, com menos gente. Normalmente, os viajantes escolhem Puerto Escondido, mas o Lonely Planet já elogia estas bandas.
Estou na Posada México, uma série de cabanas de madeira em cima da praia. Cada uma tem fora uma rede e uma entrada de areia. Na praia, há espreguicadeiras e esteiras para todos, à borla. Os locais percorrem, devagar, a areia vendendo pastéis (óptimas as pescadillas), água de coco, gelados.
Hippies loiros acabaram ficando por aqui e vendem brincos feitos por eles ou tartes caseiras. Fazem-se tatuagens e piercings. O nadador-salvador - Aquila ou Aguila ou Atila, nao sei bem - ensina a surfar e arranja maconha. Aqui todos estao muito para lá de Marrequexe e as happy hours chamam-se horas felizes. Octavio Paz, o Nobel da Literatura mexicano, escreveu, nos anos 1950, uma obra antropológica sobre os mexicanos, um pouco ao estilo do Portugal-Medo de Existir, de José Gil. Nele, Paz diz que os mexicanos passam pela vida, mas nao chegam a vive-la. "No sólo nos disimulamos a nosotros mismos y nos hacemos transparentes y fantasmales; también disimulamos la existencia de nuestros semejantes. No quiero decir que los ignoremos o los hagamos menos, actos deliberados y soberbios. Los disimulamos de manera más definitiva y radical: los ninguneamos. El ninguneo es una operación que consiste en hacer de Alguien, Ninguno." Enquanto escrevo, há uma crianca a atirar-se para o chao e a limpá-lo alegremente. Na posada, há um miúdo com o cabelo loiro aos caracóis tipo anjinho, filho de um casal de italianos, se passou o dia besuntado com areia e que corria atrás das bolas de sabao para as estourar. As criancas parecem felizes aqui.

San Cristóbal de Las Casas

San Cristóbal de Las Casas é mais pobre do que as outras regioes do México e a isso nao é alheio o facto de os seus habitantes apoiarem o movimento zapatista. Mas é também isso que lhe dá uma certa altivez, própria dos fracos que enfrentam os pobres. Até os passeios estreitos e altos e com degraus (surreais para quem tem uma estatura baixa, davam-me pelo meio da perna, foi fazer ginástica o tempo todo) parecem ter sido concebidos para demonstrar que a vida nao é fácil, mas os obstáculos nao sao intransponíveis.
O TierrAdentro é dos cafés mais fantásticos - e esquerdalhas, pues - onde já estive. Nao é só um café, alberga cooperativas de artesas zapatistas, uma livraria com tudo tudo tudo o que é escritos revolucionário. E um lema magnífico (inscrito, inclusive, nos tabuleiros de papel): "Cuando una mujer avanza, no hay hombre que retroceda." Levo-o em t-shirt, que os zapatistas também tem merchandising.
Mas San Cristóbal é pobre. E por isso dói. Meninos e meninas muito pequeninas vendem animais de barro pintado, eles, e pulseiras coloridas, elas. Aparecem a cada cinco minutos, sempre diferentes, sempre pedindo dinheiro para uma tortilla.

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Zapatistas

Estava mesmo a pedi-las. Como nao ir ver os murais e os pueblos dos apoiantes de Marcos? Hora e meia numa Hyace a rezar pela vida a cada curva e ultrapassagem. Paragem em Oventic. Portao fechado com flores. Dois guardas, um de cada lado. Um homem e uma mulher. Encapuzados, lenco vermelho ao pescoco. Pode dar-me o seu passaporte? Levam-no para a comissao de vigilancia, que me chama depois. Fazem pergntas sobre o meu interesse. Digo a verdade, sou jornalista. Passo para a comissao de explicacao (do interesse, suponho...). Meia hora la fechados dentro com o meu passaporte. Brinco com um deles, ca fora, onde anda o Marcos, que gostava tanto de o conhecer? Daágargalhadas face a provocacao. Sao muito simpaticos e cordiais, mesmo quando me dizem, depois, que posso andarilhar e falar com as pessoas, mas nao tirar fotografias nem filmar. E pedem desculpa por nao me poderem responder a perguntas. As mulheres sao mais faceis de conversar. Os murais sao do melhor (e sim, tirei algumas fotos à socapa). As condicoes nem por isso. É gente pobre, a água vem por puxadas e nao há saneamento básico. Está tudo enlameado e os paramilitares tem aumentado o cerco. Nao tem terras e estao deslocados. Na escola ensinam-se os princípios do Exército Zapatista de Libertacao Nacional e há estrangeiros a aprenderem espanhol ali. "Para todos, todo."

O susto e a surpresa

Ontem andei todo o dia pelas montanhas, de pueblo em pueblo. Cheguei de noite a San Cristóbal de Las Casas e havia um teatro sobre a vida de um chefe maia, muito sonoro e visual. Queria ir mas nao tinha muito tempo para comer, de modos que fui ao El Caldero, que o Lonely Planet identifica como um sítio para comer sopas substanciais. E assim era, de facto. E rápido. Enquanto esperava, dois miúdos minúsculos e andrajosos ocuparam-me a mesa com os seus animais feitos de barro que eles próprios faziam. Só custavam 70 centimos cada um e 6 saíram a 50 pesos. Eu só tinha 200 pesos e fui trocar ao balcao, onde estava a dona da tasca. Eles partiram, eu comi e corri para o teatro. No meio disto tudo, deixei de ter 500 pesos - cerca de 35 euros! Reparei quando já estava no teatro e tirei o dinheiro para o bilhete. Fiz rewind e das duas uma: ou os tinha perdido (mas como, se estavam num saco com fecho?) ou os putos mos tinham tirado enquanto eu trocava a outra nota. Fiquei chateada, mas rapidamente concluí que é daquelas coisas que acontecem a quem viaja. De todas as formas, voltei ao El Caldero ontem à noite. Estava fechado - e eu já nos grandes filmes, queres ver que os putos estavam orquestrados com o restaurante e ficaram tao contentes com os meus 500 pesos que agora até fecharam? Voltei lá hoje, anyway. Fiz bem. Estavam lá. Aliás, estava lá o troco - eu paguei com os 500 e pensava que tinha dado 50! Eu sei... cabecinha de alho chocho... De todas as formas, o terem-me guardado o troco faz com que admire mais o país. E com que tenha uma história para contar.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Chiapas - y viva Zapata!

Cheguei ao coraÇao de Chiapas, San Cristóbal de Las Casas, uma das quatro terras da rebeliao do Exército Zapatista de LibertaÇao Nacional. No caminho - seis horas de curvas e contracurvas, dois motoristas, autocarro brasileiro, 'Deus é fiel' na porta, serpenteando por entre montanhas, impossível dormir, que remédio se nao ver o Colisao e o Marie Antoinette ainda que dobrados...-, passámos um pueblo com murais e uma tabuleta a declarar o apoio total ao EZLN.
Meninos passeiam sozinhos pela estrada, vendem água de coco. Há muitas bancas de venda de quesos. Sao muitas inidcaÇoes do que nao fazer na estrada e as multas sao equiparadas ao salário mínimo para que se perceba exactamente o que se vai perder: 90 salários mínimos. Aviso: há vibradores a 300 metros, que aqui sao as nossas pequenas lombas sonoras.
Estou a mais de dois mil km de altitude e faz um frio de rachar de noite. Mas vou ficar por aqui mais um pouco, este é também o coraÇao indígena. Pode ser que encontre o subcomandante Marcos por aí...

Manuel, o condutor de colectivo

As distâncias curtas fazem-se em colectivos, Hyaces mais sofisticadas do que as africanas e que correm mesmo sem estarem cheias, mas com os mesmos princípios básicos: o condutor grita o destino com a cabeÇa de fora da janela e todos pagam o mesmo, para onde quer que vao: 10 pesos, 70 cêntimos. Manuel faz 300 pesos (21 euros) ao dia. Na verdade, faz mais, mas tem de pagar a gasolina do carro que nao é seu e dividir o restante com o dono do veículo. Aos fins-de-semana há mais movimento, 'hoje ninguém qer ir comigo', lamenta. 'Estás sozinha? As mexicanas nao viajam sozinhas, vao sempre com o marido', esclarece. Mas nao sou a única, há mais umas quantas norte-americanas por aí.

Mochileros

Uma mochila às costas é um código, um sinal de pertenÇa a uma tribo, de aventureiros, remediados ou meros doidos que se cumprimentam quando se cruzam deitando-se olhares cúmplices. Há muito em comum - sozinhos ou em grupo, as costas doem sempre e há frequentemente um Lonely Planet debaixo do braÇo (até se comparam ediÇoes!). Quem quer estar sozinho está sozinho, quem quer jogar conversa fora há-de encontrar alguém com quem o fazer. O que importa é que estamos uns para os outros. Porque há uma coisa que nos distingue dos que passeiam com malas de rodinhas: uma mochila às costas. E isso faz toda a diferenÇa.

Palenque - welcome to the jungle

Uau, a selva! Tropical, folhas enormes, como se as víssemos à lupa. Monos (esse magnífico nome para os macacos - hey, yo soy un mono, y tu quien es, lembram-se?) que nao se mostram mas fazem-se ouvir - uma guinchadeira à noite... Dormi numa cabana no meio da selva, aos pés das ruínas maias de Palenque (selva, verde, cascatas) e quase cheguei a acordar o basco que dormia na cama ao lado (cheguei tarde como o caraÇas, nao se pode confiar nos autocarros, a minha reserva tinha ido ao ar e houve que improvisar) porque me pareciam ursos ou qualquer outra fera do género tal era gutural o som.
A estadia no Jungle Palace (:-) foi divertida. Só há cabanas espalhadas pela selva, luz mínima, pontes e um restaurante animado, com músicos. Jantei com o basco - Jon, de Vitoria, 23 anos, independentista dos pés à cabeÇa, nao se identifica nem um pouco com os espanhóis, só nao poe bombas, leva dois meses de viagem e um por fazer ainda, rica vida -, Ed - um inglês de Newcastale com um sotaque imperceptível e com muito pouco do corpo por tatuar, cabeÇa rapada e barbicha comprida, a fazer lembrar o Edward Norton no American History X, mas, vá lá, fiquei mais sossegada quando disse que gostava do Obama -, Mina - uma israelitaa vegan que nao sei o que caralho veio fazer ao México para andar a comer pizzas margaritas sem queijo! - e Sarah e Julian, duas americanas pró-Obama.

García Márquez

Havia teatro à borla em Campeche - aliás, o pueblo estava a preparar-se para receber Andrea Bocelli, também em concerto grátis, esta sexta-feira. E o instituto cultural, edifício de arcadas virado para pátio interior, estava aberto à noite e apresentava uma exposiÇao sobre as naturezas mortas de Frida e Diego. Mas voltando ao teatro. Veio uma peÇa colombiana, La Casa, a primeira adaptaÇao de Cem Anos de Solidao autorizada por García Márquez. Excelente combinaÇao de drama, humor e fantasia. "Un amor que sangra no se olvida." As gentes fizeram fila à porta.

Sabores

Nao era difícil bater os EUA e agradar quem já tem saudades da comidinha portuguesa, mas o México é um sítio interessante para o paladar. Nao é que eu seja apreciadora de picante, mas come-se bem por estas bandas. Muito à base de carne, moles (molhos de todo o tipo - guacamole é um deles, mas o mais célebre é o feito à base de chocolate preto), feijoes, arroz branco. As doses sao enormes e vêm sempre acompanhadas por fatias redondas e fininhas de um pao feito no forno semelhante ao árabe. Sou fa das quesadillas - queijo de vaca muito branco e pouco curado dentroa daquele pao. E a sopa de lima (muito comuns por aqui - há até batatas fritas de lima) que comi ainda no Yucatán é bastante original.

PS - Agora este teclado nao tem as letras todas (o que vale é o hábito, os dedos já andam sozinhos) e o A encravaaaaaaaaaaaa.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Campeche

Campeche é uma terrinha hospitaleira, a única muralhada do México, porque era muito atacada por piratas. Tem uma praca central de arcadas com um coreto no meio, casas pintadas de várias cores, um malecón onde se faz jogging logo pela manha enquanto os pescadores em velhas canoas de madeira passam no Golfo do México. Os estudantes, pequenos e graudos, andam de farda, com meias de laa, porque é Inverno (quem me dera um Inverno destes). Os estabelecimentos comerciais tem colunas de som a dar para as ruas e sempre se ouve música.
Mal cheguei, um calor do caracas, cheia de picadas de mosquitos, so queria um mergulho no mar. Apanhei um autocarro para a Playa Bonita, que fica a uns 8 km mas a quase uma hora de caminho porque para em tudo o que e sitio. Musica a bombar, motorista a tamborilar com os dedos no volante, conducao alucinante, entradas de passageiros em movimento, 'da ca as moedas depressa', indicacao dos destinos inscrita a spray branco no vidro da frente... La cheguei. Areia dura que nem pedra, mar um pouco revolto e cheio de algas (ja me tinham dito que nao era praia turquesa de postal, ao contrario do que o nome indica). Mas soube bem, pues, é o que ha. E ainda apanhei as minhas conchas para juntar a coleccao de chakras no computador do jornal.

Maria, a rezadora

Primeira viagem de autocarro on my own: Merida - Campeche. Duas horas e meia. Vim de primera, nos autocarros que tem ar condicionado e passam filmes dobrados. Mas onde viajam muitos locais. Maria, 73 anos, era a minha parceira do lado. A saida da central, atirava beijinhos, maos nos labios, ao seu 'amor' de 81 anos. Dez filhos juntos - e benze-se num sinal da cruz. Maria apresenta-se como rezadora e estava de partida para Ciudad del Carmen por compromissos religiosos. Aproxima-se a Virgem de Guadalupe (a negra) e ha que rezar. "Sabemos onde nascemos, mas nao sabemos onde vamos morrer, por isso temos de nos cuidar." E abencoou a minha viagem.

PS - O teclado piorou...

domingo, 23 de novembro de 2008

Carlitos, o macho latino

Deu-me a fome em Tulum, depois do banho de mar. Entrei no bar e conheci Carlos Modesto, que falava pelos cotovelos, perguntava e perguntava e cantava. "Sofia? Que lindo nome! Mi abuelita era Sofia. Arrogante... Mas uma senhora."
Ao som de La Cucaracha: "Vens à procura dos machos latinos? Já há poucos... mas estao todos aqui, no México." E o que é um macho latino? "É inteligente, simpático, delicado, meigo, acolhedor... No fundo, é alguém interessante. Saberás, quando te cruzares com um."
E canta Carlitos: "Yo sé cómo duele/cuando se ama/a quien no se debe."

México!

Eis as minhas primeiras impressoes deste sítio onde nao há til nos teclados...
Gente muy simpática, hospitaleira, que gosta que gostem do seu país.
Gente pequenina - já cheguei a sentir-me mesmo grande (a sério, há gente crescida que parece crianÇa). Gente com feiÇoes indígenas.
As distâncias sao grandes, as estradas cheias de obstáculos. Gente que se atravessa; várias faixas e carros que circulam na direita para virar à esquerda; carrinhas de paradas multiplas (a fazerem-me lembrar os toca-toca na guiné e os chapas em MoÇambique) a fazerem quatro piscas de repente e guinadas para a berma para deixar um passageiro ou apanhar outro; muitos topes - que é como quem diz lombas, mas nao umas quaisquer, mas sim daquelas que lixam mesmo o carro se um gajo estiver distraído; muita polícia escondida debaixo dos viadutos de automáticas em punho a mandar parar carros (o tráfico de droga nao é só em Tijuana); muito aviso na estrada - Si toma, no maneje/ A sua família espera por si.
Andei quase 400 quilómetros estes primeiros três dias, pilotada pelo meu pai, com quem me encontrei aqui (os genes...). De Cancún, onde aterrei e nem cheguei a conhecer, partimos para Playa del Carmen, estância turística cheia de gente que acha que foi ao México mesmo nunca tendo saído do hotel.
Isto é terra dos maias (que já tinham sistemas de armazenar a água da chuva e um calendário estranhamente parecido com o nosso) e, portanto, seguiram-se as ruínas de Cobá - que vimos de bicicleta - e as de Tulum - grande banho de mar na praia de água azul turquesa aos pés do castelo. No dia seguinte, Valladolid e um encontro de terceira idade na praça principal, com senhoras de 70 anos vestidas a rigor (traje típico: blusa branca bordada com flores coloridas a dar pelo joelho e por baixo saia branca rendilhada) a executarem as danças tradicionais sob as arcadas à espanhola, a famosa Chichén Itzá, um nunca mais acabar de pedras históricas e vestígios ancestrais, e ainda um mergulho no cenote ainda com estalactites da aldeia de Dzitnup. Hoje, Uxmal, mais ruínas maias, mas desta vez mais concentradas, de formas diferentes e com os terrenos cobertos de arva verde. Subimos à pirâmide e, depois do pânico das vertigens (genes, de novo...), lá gozámos a vista. Nada à volta, só verde, da cor da humidade tropical.

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

On the road again... desta vez para o México... hasta pronto...

Key West








Percebi o fascínio do Hemingway (sempre foram mais de dez anos), que a terra chamava de "Papa". São quatro horas, 43 pontes e 34 keys (cayos) de Miami até Key West (nome original Cayo Hueso, dado por Ponce de Leão, mas os americanos não perceberam o que queria dizer e aproximaram outro nome...). A viagem é de cortar a respiração.
Primeira paragem: Sloppy Joe's. O bar é enorme, de madeira, agitado, constante entra-e-sai. Afinal, é de Hemingway que estamos a falar. Venha de lá um Papa Dobles, bacardi light rum, que ele não tinha mau gosto (embora gostasse de bebidas puxaditas... à macho...). Acompanhado por conch fritters, umas bolas tipo filhoses mas rechadas com marisco. Ao som da guitarra tocada por uma versão loira do Howard Stern, que canta Crosby, Stills & Nash. E eu a dar-me conta de que sei aquelas músicas de cor por causa dos CD lá de casa...
Não foi aqui que Hemingway se inspirou para O Velho e o Mar, mas podia ter sido - a descrição do velho Santiago é branca, mas o seu espírito de pesca está também em cada um dos emigrantes vindos das Bahamas que aqui se instalaram e vivem em casinhas brancas com alpendre e cadeira de baloiço, a que os americanos chamam 'shotgun', porque uma bala atravessa facilmente da porta de trás à porta da frente, tal é a exiguidade.
Key West é paradisíaco, água transparente, easy-going, sem pressas, cheia de sentido de humor, Florida and Bahamas style combined. Até os mendigos enfeitam os cães com laçarotes e os táxis não têm outra cor para além do rosa.
É turístico, verdade, ou não tivesse o "Papa" morado cá. Mas é também o ponto mais a sul do continente dos Estados Unidos, com um marco que avisa que faltam apenas "90 miles to Cuba". Key West entrou para os meus come back places.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Empregado do ano



Alexis, no melhor restaurante desta viagem. Um bouchon lyonnais francês no bairro in de Coconut Grove. Champagne, escargots, gambás, fricassé, tarte de maçã com gelado de baunilha. E a melhor trupe de empregados de sempre. A mais de dez mil quilómetros de Paris.

Beach, a própria



A água é quente. E azul, e verde. E tem ondas. E está sol. E é Novembro. Chama-se preparação para a depressão do Inverno europeu.

Art déco








Miami Beach tem o maior concentrado mundial de art déco. E, provavelmente, de beautiful people, com tudo no sítio, bem tratadinho e bem trabalhadinho. Mas disso não tenho fotos, está tudo gravado na retina.

domingo, 16 de novembro de 2008

Criado mudo

Diz-me o Antônio, paulista de Capão Bonito, avó de Trás-os-Montes, pai português que emigrou novo, que em português do Brasil não tem mesinha de cabeceira. Tem criado mudo. Oh, língua porreta!

Time bank

«Nem tudo pode ser comprado com dinheiro e não há lealdade nem confiança no dinheiro. O banco de tempo mostra o lado humano do dinheiro.» Ana Miyares, Nova Iorque.
«O dinheiro existe para evitar a confiança nas pessoas. Agora, mais do que nunca, temos que redescobrir o que significa confiarmos uns nos outros.» Edgar Cahn, Washington.
Já estou a carburar...

sábado, 15 de novembro de 2008

é maravilhoso, é maravilhoso!

Ontem fui jantar a um dos restaurantes em downtown, com o meu senhor de Miami, o Antonio, que comentou que só em tempo de crise é que é possível reservar uma mesa para o próprio dia. A cidade tem uma vida nocturna animada. Tudo emproado e bronzeado. O empregado que nos atendeu era expressivo à americana, servir à mesa pode ser uma peça teatral. Tudo era maravilhoso, fantástico, uau, chuac e hmmm. Dava vontade de rir o homem. Comi caranguejo "Palin" do Alasca. Tinha cá umas pernas! Muito gostoso. E não tive de mexer uma palhinha para trinchar o bicho. O expressivo fez tudinho. Com luvas de médico e uma rapidez. Bebemos um vinho francês a atirar para o moscatel também bastante bom. A conta? Pois, não sei... Deve ter sido bonita, deve. Obrigada, Antonio.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Café

Custou 5 dólares, mas foi o melhor que tomei num mês (tinha espuminha e tudo). E todos deviam vir com esta apresentação. Já viram o cute piqueno copinho?

Pescar em Miami

Miami não é uma cidade fácil. Hoje andei mais de uma hora a pé até descobrir um café e tentei ir dar à baía dezenas de vezes mas nunca consegui passar das cancelas à entrada de cada arranha-céus que atracou junto à água. A baía não é de todos. Só mesmo no cantinho da ponta há um banco de madeira. E um asian-american a tentar pescar sem conseguir.

Little Havana ou Pequeña Habana




Que Miami alberga a maior concentração de exilados cubanos já todos sabíamos, mas que o espanhol se sobreponha ao inglês na maioria dos serviços é surpreendente. No café, responderam com um 'cómo?' ao meu pedido em inglês. Já com a senhora na paragem do autocarro, optei por falar espanhol, dado o seu ar claramente hispânico, e ela respondeu-me no seu torpe inglês... This not my bus, my house, beautiful area. Estou confusa...
Em Little Havana - perdão, Pequeña Habana - não há arranha-céus, só casinhas com grades brancas, como em Cuba, e uma escola Lincoln-Martí, uma união improvável na terra dos Castro. Há um passeio da fama com estrelas para Julio Iglesias e Gloria Estefan. Montes de igrejas. Bistecs, moros y cristianos, banana frita e batata doce nos restaurantes. Bom café. Os velhos cheiram a charuto e mantêm o mesmo olhar sedutor. Jogam dominó num parque, fazem barulho a la latinos. Quieres hacer una pedicure? Geladito, coco, fresa!

Rosa Parks


Esta foto foi tirada num autocarro de Miami, em direcção a Little Havana. E lembrou-me a missa na Shiloh Baptist Church a que assisti no primeiro domingo após a eleição de Obama, no Harlem, em Nova Iorque, quando a religião se fundiu com a política. O livrinho das orações dizia: "God bless this incoming Administration. Remember, Rosa Parks sat so Martin Luther King, Jr. could walk and Barack Obama ran so that our children can fly to the top."

Pessoas com quem me cruzei

Brian, o cowboy gay
Ser do Texas e ser gay não deve ser nada fácil. Mas Brian já vive em Washington DC há 25 anos e tudo é relativo. Usa t-shirt num lado e casaco de Inverno no outro. É doido por Obama e acha que ele pode mudar as coisas. "E é jovem!" Estava entusiasmado e procura desesperadamente uma forma de estar presente na entrada de Barack na Casa Branca, a 20 de Janeiro. Não percebe como é que alguém pode querer ter uma arma em casa. Nem como o Estado pode mandar executar. Nem como o aborto é ilegal. Mas também não vê como é que um casal gay pode querer casar-se. Quis saber todas as minhas impressões do país. Ficou contente quando lhe disse que tinha achado Washington uma cidade muito cosmopolita. Ele já é mais de lá. Acabou de fechar a galeria de arte que tinha em Georgetown e agora vai de férias, pensar no que quer fazer a seguir. Sem drama. Vai passar por Lisboa em breve. Foi ele que insistiu com o companheiro para darem lá um salto depois de Madrid. "Vocês já foram donos do mundo." Pois, mas isso foi há algum tempo, Brian.

O Daytona man
Não sei o nome dele, mas tinha todo o ar de um Daytona man, daqueles fanáticos por corridas de carros, de patilhas (já grisalhas), boné e blusão à aviador. Sentei-me ao seu lado para almoçar, na enésima escala em Atlanta (always Georgia on my Mind). "What a zoo!", apresentou-se, referindo-se ao frenesim do atendimento - esta gente nem sequer espera que chegue a nossa vez, já nos estão a perguntar o que queremos ainda estamos a quilómetros da máquina registadora e temos de esforçar os olhos para ler a lista e gritar o pedido (e quer tomate e alface? e maionese? e molhos disto e daquilo?). Mas voltemos ao Daytona man. "Para onde vais, darling?" Há sempre um darling, ou um sweetie. Miami. "Pois, está lá calor, venho da zona. E o furacão já passou. Vou para o frio agora", lamentou. Fez barulho com a palhinha e levantou-se. Tinha um ursinho de peluche daqueles de brinde por algum menu. Deu-mo, piscou-me o olho e disse: "Acho que ele prefere ir para Miami." Lá trouxe o urso comigo. Mais urso menos urso, já pareço uma mula de carga e já.

Tina
Era a minha senhora de Nova Iorque. conhecia-a em Manassas, naquele almoço de emigrantes tugas sobre o qual escrevi para o Público. Só estive com ela uma noite na Big City. Teve uma série de azares seguidos (espatifou o carro, apanhou uma infecção urinária, etc.) que a obrigaram a ir de fim-de-semana a Washington, onde, na verdade, sempre viveu. Tem 20 anos de DC e uns quatro de NY - os patrões mudaram e ela, cozinheira interna, foi atrás, que é melhor um job do que no job. Mas nunca se habituou à big city, apesar de viver bem no centro (201 East 36th, perto do Chrysler e da Grand Central, não longe do Empire State Building). Tem 50 anos e já deve ser difícil fazer amigos. Pareceu-me sozinha.

Phillip
É um activista negro de Bronzeville (que ele diz que se vai tornar em Blondesville, por causa da especulação imobiliária). Elisabeth, a minha senhora de Chicago, descreveu-o como "um homem-raça". Foi das pessoas mais apaixonadas que conheci por aqui. Não fala, reivindica o tempo todo. Uma energia só vista. Acompanhei-o no dia da votação. Ofereceu-me uma pulseira com um dos melhores slogans sociais que já vi: "Educate or Die." Nem mais, nem menos. "What more am I than a glorified street hustler?", filosofou a caminho da mesa de voto.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Mas por que é que...

... repetimos sempre actos que, já sabemos à partida, são uma asneira??? Por exemplo, por que é que eu chego a um supermercado e penso 'ah, só vou comprar umas coisinhas, por isso vou de cestinho'. Cestinho? Mas porquê??? Se há umas coisas com quatro rodas que é só empurrar??? Deve ser mais giro ir andar de cestinho às compras, deve. Principalmente para as mãos e para as costas... Rrrrrrrrr... É como quando pedimos um chá e não esperamos que arrefeça. E, claro, ficamos com aquela sensação horrível da língua queimada durante o resto do dia. Rrrrrrrrr...
Mais: quem é que se lembra de ir ao supermercado nos Estados Unidos sem ter carro (automóvel mesmo)? Ninguém no seu perfeito juízo mental. Miami não é para peões que gostam de ir às compras e carregar as cenas às costas.
É tudo escuro como breu, é só faróis a ofuscarem os olhos, não se vê vivalma mesmo às sete da tarde e não sei como não torci um tornozelo ou algo assim... Além disso, o supermercado mais perto fica a two blocks, mas aqui dois quarteirões são para aí um quilómetro... Ainda que o esforço desse para abater os pneus...
Resumindo: às vezes gostava que o gene que me distingue dos macacos influenciasse mais as minhas decisões.

Bienvenida a Miami!

Já me estavam a começar a gelar os ossos quando me pus ao caminho para sul. Logo no avião, tudo a despir-se, já em t-shirt vermelha às florzinhas brancas. E eu com as minhas três camadas e mais cachecol e botas de cano alto. Miami... Água e sol, o que é preciso mais? Um calor húmido, tropical, é um sítio-furacão, onde o vento assobia e a água tem aquela ondulação do nunca-se-sabe-o-que-vem-aí. Onde há uma chuvinha abençoada ao fim da tarde. Onde a roupa se cola à pele. Já tinha saudades de transpirar! Era mesmo isto de que estava a precisar. Eu ressaco havaiana no pé.
Vou ficar em casa de uns amigos em downtown, no meio dos arranha-céus que só de vez em quando descobrem a baía. Miami Beach fica do outro lado. Deste, atrás dos arranha-céus, fica a hispanolândia. Esqueçam os americanos loiros e branqueles - a pele escurece aqui.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Harlem, depois da eleição de Obama







E depois das Torres



A primeira vez que estive em Nova Iorque foi de passagem, na mesma viagem do gamanço no 11º ano. A segunda foi na Páscoa de 2001, pouco tempo antes do 11 de Setembro. Vi, durante duas semanas, as Torres Gémeas todos os dias, de todos os ângulos e feitios. E confesso que agora, à terceira, me pareceu estranho elas não estarem lá, apesar de já saber que não estariam.
Apanhei o metro para Downtown-Manhattan e, olhando para cima, para cada um dos muitos arranha-céus que para ali estão, não consegui identificar logo onde é que elas estavam antes de tudo acontecer. Aliás, o buraco que lá ficou parece demasiado pequeno (não tinha sequer noção de como eram os edificios à volta, porque só devo ter olhado para as duas Torres).
Confesso que esperava ver pedaços de fuselagem. Nada, limpinho. Homens-formiguinha lá em baixo a trabalhar, gruas por todo o lado. Reconstruction in progress. Há uma ponte pedonal, um best spot for a picture, um museu-memorial onde se paga dez dólares para entrar, t-shirts (We Remember, juntamente com um Calvin de sobrolho franzido à 'New York Attitude' e com o bonequinho Be Wild), bonés Ground Zero para a bunch of terror vampires que desfila por ali (incluindo eu, pois...).

domingo, 9 de novembro de 2008

My teen story...

Vou partilhar um dark secret... Vim aos Estados Unidos, pela primeira vez, quando tinha 17 anos e era uma jovem rebelde (hoje ainda sou as duas coisas, mas já tenho mais não sei quantos anos em cima, isso agora não interessa nada). 11º ano, situem-se. Eu tinha um casaco de penas - naquela altura toda a gente tinha um casaco de penas. Vim em programa de intercâmbio, com a grande vantagem de não ter tido de receber a americana cheerleader em casa de quem fiquei três semanas. Basicamente, vim em substituição.
Fiquei com uma típica família americana em New Jersey - tão típica que não almoçavam nem jantavam, abriam pacotes de batatas fritas ou outras merdas parecidas e comiam-nos até ao fim. Emagreci seis quilos em três semanas - era suposto alimentarem-me e eu pura e simplesmente não conseguia comer uma espécie de almôndegas que tiravam do congelador directamente para o leite ao pequeno-almoço. Ughhhhh... Andei a maçãs, que era a única fruta que havia lá por casa. Resultado: 39 quilos aos 17 anos. E uma data de prendas roubadas. Ah, pois é, bebé... Eu gamei (isso, furtei, abafei, fiz desaparecer) nos States (nomeadamente em Nova Iorque) e não fui presa. Aliás, era bem boa naquilo... Com câmaras e tudo. Casaco de penas e ar teen, estão a ver? Bolsos cheios de pins, ímans, postais (acho que cheguei a surripiar um ursinho de peluche...).
Aliás, o meu 11º ano foi só gamanço - já em Itália (antes ou depois dos States? Estou a ficar senil), também em intercâmbio, lembro-me de limparmos (claro que era uma cena de grupo) uma loja de vidro de Murano e de passarmos postais tipo discos voadores de uns para os outros na ruas de Veneza.
Bons tempos... alguém se lembra? Ou ninguém se quer lembrar? Eu gostei de ser teen. Verdade que hoje podia estar no corredor da morte, que aqui não se pode beber até aos 21 mas para ser preso basta ter pouco juízo, ou ser preto.

Gourmet Pretzels

Se há coisa que os Estados Unidos têm de bom são as companhias internas. Não que elas sejam uma maravilha da natureza, mas há muitas. Logo, os preços baixam. Mais, há mais hipóteses do que a ida ou a ida e volta, há a multi-way trip, que compensa quando se quer ir para mais do que um destino.
Fiz DC-Chicago-NY por 200 euros. Sempre com a AirTran, que ainda nos oferecieu de beber e um snack de Gourmet Pretzels. No pacote, aproveita para publicitar a própria marca.
Eating instructions:
1. Think about our wonderful low fares at airtran.com as you open packet;
2. Place a pretzel in mouth. With each crunch, be reminded of our low fares;
3. As you swallow, remember again just how low the fares are;
4. Repeat until pretzel packet is empty;
5. Keep empty packet to remind yourself to book at airtran.com, where you'll always find our lowest fares.
Foi o que fiz. Agora vai directinho para o lixo.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

The Big City


Nova Iorque é grande - parece e é. Transpira energia, dinâmica, azáfama constante. Está sempre em movimento. Começa-se a andar mais depressa nem que não se queira. As hipóteses de atropelamento por outros seres humanos são muitas. Os encontrões e cotoveladas inevitáveis.
O metro é um labirinto de cores, linhas, direcções. Não cabe um pentelho entre as carruagens e as plataformas (e, muitas vezes, entre a parede e as carruagens), o que o torna claustrofóbico. E há os local e os express - indicações só para entendidos. O engano acontece mais tarde ou mais cedo.
É também a cidade do consumo - deve ser aquela onde mais se gasta e também onde mais lixo se produz, a avaliar pelas ruas cheias de sacos nos passeios à noite. Aqui o consumismo não é um apelo, é um íman. Puxa-nos todo o tempo. É difícil resistir. E, se não se está com ele, está-se contra ele - os muitos sem-abrigo estão lá para nos lembrar disso.
Nova Iorque tem o Central Park - e todas as cidades deviam ter um Central Park tão lindo como este no Outono. Os caminhos estão cobertos de folhas amareladas, acastanhadas, avermelhadas... E, não se deixem iludir pelo senhor que corria só de calção tipo boxeur (portanto, quase nu) que tinha acabado de passar por mim e, dali a cem metros, já tinha dado a volta ao parque e voltado a passar por mim, Central Park é um pulmão a sério (embora o único).
E depois há Greenwhich Village - os bares, os restaurantes (um brasileiro!! carnonga a sério e puré de batata!!), os clubes de jazz (dois velhinhos, Cecil Taylor e Tony Oxley, improvisaram e experimentaram no Village Vanguard - eu continuo mais fã do clássico, mas há que abrir as orelhas). A cidade que nunca dorme. E que acorda cedo. Que vive como se não houvesse amanhã.
Resumindo, New York continua a ser uma perdição - e, para mim, a música do Sinatra na perfeição - e um daqueles sítios onde não sei bem se viveria, mas ao qual gostaria de voltar a voltar.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Goodbye Chicago, hello New York



Pois é, tão depressa pus os pés em Chicago como de lá saí... Não foi por mal, até gostava de ter ficado mais tempo. Mas havia esta hipótese de rever New York e não se pode dizer que não à cidade que nunca dorme. Principalmente quando se tem uma casa - a partir de amanhã só para mim!!! - na East 36th Street, perto do Empire State Building. Há que escolher bem os amigos novos que se faz.
Anyway, não quero começar a gozar a Big Apple sem antes deixar umas palavras sobre Chicago. Que traduzem sensações fugazes, porque na verdade não tive tempo para sentir o pulsar da cidade - mas a reacção colectiva à consagração de Obama cravou-me para sempre a imagem de uma cidade orgulhosa.
Chicago é superlativa. Os arranha-céus - que são mais fura-céus - têm aqui o seu apogeu. Para os architecture-lovers (diz que há alguns a lerem-me), isto é o paraíso. Para quem gosta de cidades mais pessoais, é assustador. Cada coisa daquelas deve levar uns 30 apartamentos por piso em cada uma das centenas de andares. A mim não me apanhavam a viver assim no alto, sujeita a um aviãozito comandado por um qualquer fanático.
Eu é mais casinha com alpendre e jardim à frente, como há muitas nos bairros étnicos de Chicago. Mesmo nas streets hundreds de Roseland, a murder town ou WaWa land (wild, wild), as construções não têm aquele ar de bairro social que as nossas têm.
Mas não é pêra doce viver ali - que o digam os cem putos que foram assassinados a tiro na rua nos últimos dois anos (há um memorial com os seus nomes, na foto). E assim faço a segunda apreciação à flor da pele: Chicago é uma cidade violenta e mafiosa - onde nunca me senti totalmente confortável (talvez porque quando cheguei à WaWa land, o Phillip Jackson fez questão de me mostrar a rua onde latinos e negros se matam diariamente). É uma cidade segregada, com pouca mistura, muito guetizada. Daí o orgulho por um Presidente que se fez em Chicago - e que representa os mais pobres, os mais discriminados, os mais excluídos socialmente. Ele sabe que não é fácil viver-se ali.
E depois há o lago Michigan, do qual nem se vê o fim, e o Navy Pier. E uma estrada à borda de água que atravessa os arranha-céus - e é pôr a cabeça de fora da janela e suster a respiração enquanto se olha para cima. É giro de ver, mas não para viver.

Madison-Wisconsin

Fiz a minha primeira viagem de autocarro pela América no dia a seguir à noite no Grant Park (excelente ideia, Sofia...). Três horas de sono e lá fui eu - oito horas, ir e vir. Madison-Wisconsin. Uma das terras mais liberais do país e um dos epicentros dos protestos anti-Vietname. Mas a minha host, Stephanie, diz que a cidade já foi mais progressista (mas ela votou em Ralph Nader, candidato de esquerda - um daqueles de que nunca ninguém ouve falar porque não entram nas notícias, mas que ficou em terceiro lugar, com um por cento de votos, enquanto todos os outros ficaram a zeros).
Os autocarros são o transporte mais barato e, por isso, são ocupados essencialmente por afro-americanos e latinos - e, claro, backpackers. Fazem várias paragens em terreolas - gostava de ter espreitado Milwaukee só pelo nome - e vão pelas freeways.
No banco ao lado seguia um tipo parecido com o Leonardo DiCaprio, versão mais morena e mais asiática. Lia um livro com o título "Do you speak American?" e eu pensei que não fosse americano. Era de Nova Iorque (ninguém é de Nova Iorque...). Anda a estudar os diferentes sotaques e palavras usadas pelo país fora (soda para uns, pop para outros), enquanto vai a caminho da Guatemala. Ganda freak...

Melhor t-shirt

Até agora, a melhor t-shirt que vi, num negão enorme, tipo basquetebolista, dizia: The White House elevated to Black for Obama.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Por falar em black power


O-B-A-M-A!!!


A euforia resumiu-se a esta palavra, com efeito mágico e carregada de expectativa. Ele conseguiu. E eles e elas também, com ele. Ele pode ser a mudança. Mas isso só o futuro - que acontece quando as palavras se transformam em actos - o dirá. Agora o simbolismo de olhar para um Presidente que, aparte tudo o resto, é, efectivamente, um negro - esse ninguém lho tira.

Eis o que ditei para o PUBLICO.PT, por telemóvel, a partir do Grant Park, era já meia-noite.
As ruas de Chicago mostram bem como Barack Obama é o Presidente de todos os americanos. Gente de todas as etnias, de todas as idades, em cadeira de rodas, mas também muitos estrangeiros estão nesse momento a mudar os slogans do candidato democrata para “Yes we did!”, ou “Yes we won!”. Foi impressionante a forma organizada e rápida, com que a população sem-bilhete desmobilizou do Grant Park, tendo agora escoado para a extensíssima Michigan Avenue, concentrando-se entre os milhares de arranha-céus de Chicago. Antes do discurso de Obama, Charles, um afro-americano de 64 anos, dançava aos som das músicas da campanha democrata e, quando questionado sobre se esperava ver isto em vida, encolheu os ombros e disse: “Era inevitável.” A maior ovação da noite deu-se, obviamente, quando Obama apareceu nos ecrãs espalhados pelo parque para fazer o seu discurso de vitória, a que muitas pessoas assistiram com visível emoção. Ovação enorme recebeu também Michelle Obama, a quem Barack tratou por “a próxima primeira dama” da América, e eram muitas as mulheres que elogiavam a roupa por ela escolhida para a noite eleitoral. Com a festa desfeita, vêem-se já nas ruas muitas pessoas com cartazes a perguntar “E agora o quê?”, num sinal das expectativas que o Presidente eleito está a gerar. Mas a euforia ainda domina a multidão que saiu às ruas para comemorar a vitória, e são muitos os que não se coíbem de trocar “free hugs” e pedir “give me five” aos desconhecidos por quem passam.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

JUST CALL IT, MAN!

Bronzeville

“It’s time for a change” – é tempo de uma mudança. Os cidadãos comuns de Bronzeville, o bairro negro de Chicago, resumem assim o seu entusiasmo, comedido e de poucas palavras, não vá o diabo tecê-las, face aos resultados eleitorais que se avizinham, que, acreditam, serão favoráveis ao candidato democrata, Barack Obama.
Phillip Jackson, activista afroamericano e agente educativo comunitário, refere-se a ela como a “eleição de Obama”. Está “optimista”, mas “cauteloso” também. Especialmente por causa das “possibilidades de fraude”. “O nosso sistema [eleitoral] não é muito fiável”, aponta.
Em Bronzeville, o histórico bairro negro de Chicago assim chamado pela cor da pele das famílias descendentes de escravos que ali chegaram vindas do Sul segregacionista nos anos 1920/30, ninguém esconde que “a raça” é um factor importante. Barack Obama, acreditam muitos, servirá de “modelo” às crianças afroamericanas. “Ele mostrará que os negros não servem só para o basquetebol”, diz a activista e investigadora Elisabeth Solomon. O comericante James Park diz que Obama lhes fará “levantar a cabeça”.
Claro que uma vitória de Obama é apenas “o ponto de partida” e que “uma pessoa só não fará a diferença”, alerta Phillip. “Nós vamos ajudar a pô-lo lá [na Casa Branca], mas depois ele terá de dar provas”, realça o activista, que conhece pessoalmente Obama, a quem descreve como “esperto, sincero e sofisticado”. E Obama aprendeu muito com os activistas comunitários de Chicago como Phillip.
Confiante numa vitória de Obama, o investidor imobiliário Peter Payne não acredita, porém, na diferença das sondagens. “Obama ganhará, mas não por tanto.” Já o senhor que vende dois cigarros por um dólar na esquina da loja de donuts – o desemprego é elevado em Chicago, mas sobe ainda mais nos bairros afroamericanos – assinala que “muita gente foi votar”.

Roseland, a murder town
Chinatown não fica longe de Bronzeville, mas as secções de voto não proliferam na zona. Tudo – mesmo tudo – é chinês (mandarim, cantonês, whatever). Os rostos são todos chineses. Há um grupo de homens recém-chegados, sentados à espera que os orientem no bairro. Chicago é uma cidade visivelmente segregada, em que cada bairro tem uma aparência étnica – e poucas excepções.
Perto, fica os bairros latinos gémeos de Pilsen-Little Village. Julia Morales, fiscal do Estado, é um dos elementos da mesa de voto. Nasceu em Chicago há 47 anos atrás, mas é descendente de mexicanos. Julia não se lembra de ver “tanta gente a votar, logo às seis da manhã já faziam fila”. Os latinos estão por Obama, assegura. “Todos querem uma mudança”, diz, frisando que a maioria dos latinos faz trabalhos blue collar – que é como quem diz manuais, “aqueles que mais ninguém quer fazer”. E a economia está a deixar estes imigrantes – muitos deles ilegais – preocupados. “Já não vêm como antes e alguns estão a ser repatriados”, conta Julia. Na maioria mexicanos, quase não têm estudos. Para agravar a situação, os “wedo” – nome que os latinos dão aos americanos brancos – estão a procurar casas na área, porque “as rendas são mais baratas” e os latinos estão a vender.
A construção dos bairros não os sinaliza de imediato como pobres ou desfavorecidos – muitos têm casinhas baixinhas, pintadas e arranjadas, ruas amplas, lojas abertas, um aspecto cénico a milhas de uma favela brasileira e mesmo de uma Cova da Moura ou de uma Quinta do Mocho.
Mas Chicago é a cidade mais violenta dos Estados Unidos – e a máfia ainda anda por aqui. A viagem de Bronzeville para Roseland, a zona das “hundreds” – todas as ruas com números nas centenas – é curta, mas entra-se num outro mundo, avisa Phillip. Passa-se a estar em “murder town” (cidade dos assassinatos), em WaWa (wild, wild), a área onde mais se mata.
Nenhum branco na rua e um sem fim de igrejas, centros religiosos, templos. “Quando uma zona é violenta, as igrejas proliferam. Comércio é que não há”, assinala Phillip. James Park – JP, como é conhecido – tem um negócio de electrodomésticos e móveis ali perto e diz que o bairro é pacífico, desde que se ande de “colete à prova de bala”. “A polícia deixou de cá vir”, conta, apontando para o furo de bala no seu jipe. “Atira-se por atirar.”
“Estes miúdos”, aponta Phillip enquanto circulamos pelas ruas, “estão imensamente armados, e com armas automáticas”. Umas centenas de metros à frente foi erguido um memorial aos quase cem jovens – dos 11 aos 20 e tais anos – mortos nas ruas nos últimos dois anos, com a faixa Kids Off The Block, o nome de um projecto que tenta melhorar as coisas para os jovens do bairro. Na cortada à esquerda, fica “a zona onde negros e latinos se matam diariamente”, diz Phillip, esperando que Obama não se junte aos “políticos negros” que não têm feito nada para mudar as coisas – e que fecham os olhos ao tráfico e à violência. “Precisamos de alguém que cuide dos pobres, que olhe por eles”, diz JP. Em Bronzeville e Roseland, eles acham que esse alguém pode ser Obama.

Eu quase votei


Não sou cidadã dos Estados Unidos da América, mas, hoje, quase votei. Phillip Jackson, um agente educativo comunitário que conheci em Bronzeville, convidou-me a acompanhar a sua ida às urnas, nos Lincoln Perry Apartments. Mas nunca pensei que passasse da porta ou, vá lá, da mesa de voto.
Duas senhoras descomunalmente obesas procuravam nos cadernos os nomes dos eleitores e arrancavam metade da ficha quando estes apareciam para votar. Conheciam bem Phillip, que levou donuts e café para todos, que vive no bairro para onde vieram viver muitas famílias de african-americans nos anos 1920/30, fugidos ao Sul mais segregacionista e racista.
Estávamos, portanto, no coração negro de Chicago – e ninguém escondia isso, nem mesmo dentro da secção de voto. Apesar de na parede estar afixado um quadro de regras e uma delas ser abster-se de manifestações sobre os candidatos ou as eleições, ouviam-se muitos Obama.
Phillip optou pelo voto electrónico e, surpresa das surpresas, eu fui autorizada a ir com ele até à máquina e, mais ainda, fotografá-lo enquanto votava. Cruz em Obama/Biden, nos senadores, nos congressistas. Já vamos na página 3 e surge uma lista infindável de representantes do Estado – juízes, notários, etc…
Isto tudo e ainda faltavam dois referendos: um, recorrentemente chumbado, sobre alterar a Constituição; outro sobre obrigar o município a reservar 26 por cento dos terrenos do bairro para construções a preços acessíveis. Há 1800 lotes por ocupar em Bronzeville e muitas casas estão à venda por um milhão de dólares para cima. Phillip Jackson diz que essa “especulação imobiliária” vai aumentar os impostos e obrigar muitas famílias de baixos recursos a saírem do bairro. Além disso, de acordo com o plano municipal, muitos dos edifícios serão demolidos no prazo de dois anos. Nos lotes em construção, em que um estúdio poderá custar 750 mil dólares, os futuros compradores que aparecem nos cartazes publicitários são ou brancos ou chineses – quando o bairro é maioritariamente african-american e também latin-american.
O investidor imobiliário Peter Payne confirmou que “muitas pessoas terão que sair” do bairro, mas frisou que defende uma solução integrada, com soluções para os mais pobres. “Não podemos tirar daqui toda a gente. Chicago já é a cidade mais segregada dos Estados Unidos.”

Elisabeth

A minha host é uma querida. Mommy-style. Muito preocupada - tens fome, o que comes ao pequeno-almoço, para onde precisas de ir amanhã, é melhor arranjar alguém para te acompanhar...
Elisabeth tem alergia a tudo o que é cena e, portanto, só come comida orgânica (ficou aliviada quando lhe disse que não gosto de junk food). Fomos a um tailandês jantar e, antes do pedido, foi um disparar de perguntas -tem isto, tem aquilo, de certeza?
É uma velha hippie, mantendo aquele ar jovem típico dos hippies. Feminista da velha guarda (lord is great!), dois abortos antes dos 20, mãe solteira uns anos mais tarde, um filho de 35 anos com quatro putos já, relações a dupli e triplicar de cada vez, descobriu há dois anos que andava com muitos gajos porque, na verdade, andava à procura das pessoas erradas e só juntando alguns é que tinha o que queria. Descobriu que o que procurava num homem era que fosse kind, generous, universal, open-minded - e nenhum dos muitos com que dormia era. Afinal, ele estava mesmo debaixo do seu olho, no mesmo prédio, e tomava-lhe conta dos gatos (não sobrou nenhum) quando ela precisava de sair. "Não temos nada em comum, ele nem sequer lê." Elisabeth é uma mulher cultíssima, que adora conversar e debater todo o tipo de tópicos. Richard levantou-se da cama para me vir dizer olá mas voltou logo para lá. É mais velho, já teve dois ataques cardíacos, tem cancro na próstata, mas tem um personal gym montado em casa (um loft espectacular, quase todo em open space, janelas do chão ao tecto). Esta será a minha casa por três noites e, meus amigos, nós não somos nada hospitaleiros comparados com esta malta - quem é que aí ainda abre as portas de casa a uma total desconhecida?

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

en route to Chicago

Malas, peso, too much para procurar um transporte público. Táxi! O condutor pertence a uma terceira geração de washingtonians. African-american. Fala com a irmã, que vive em Norfolk. "Pena que Maryland não tenha voto antecipado, se não já tinha votado", queixa-se. But, "he will win overwhelmingly", acredita. Ele, logicamente, é Obama. E se não ganhar? "O melhor é sair do país, do jeito que os republicanos têm posto isto para baixo."
Aeroporto, check-in do it yourself. Um boi (no meu caso, uma vaca) a olhar para um palácio... À frente de cada balcão há uma máquina electrónica e somos nós que temos de fazer tudo, até sair o bilhete impresso. Eu sei que eles ganham mal, mas estão ali a fazer o quê?
Salas de espera, CNN ligada o tempo todo em giant screen. Election, election, election, como a gravidez na adolescência está relacionada com o tempo passado em frente à televisão, como as crianças estão a tomar cada vez mais medicamentos a longo prazo. A saga-campanha de dois anos está quase a acabar e eles já me parecem muito fartos de tudo isto. Stop em Atlanta, Georgia On My Mind a atravessar-me o espírito, arranha-céus ao longe, here we go again. Chicago, já de noite, hora de ponta. Elisabeth, a minha host, não gosta de auto-estradas, ainda bem. Passamos por uma série de bairros difíceis. Chicago tem uma aparência mais pesada, a violência anda pelos cantos das ruas. É muito guetizada também - e o desemprego é muito mais elevado entre os african-americans. Martin Luther King travou grandes batalhas aqui. Pode ser que Obama acabe definitivamente com elas.

domingo, 2 de novembro de 2008

O guia eleitoral de Michael Moore

Declaração de princípio: eu gosto de Michael Moore e não estou preocupada com a total veracidade do que ele diz.
Michael Moore editou um guia eleitoral para a votação desta terça-feira, que eu estou a devorar. Comprei-o ontem e já vou a meio, com muitas gargalhadas nas esperas do metro pelo meio.
No primeiro capítulo, Mike, o especialista em eleições, responde às perguntas estúpidas de vários eleitores. Com tiradas absolutamente geniais. O patriotismo e tradicional apoio aos militares são um dos tópicos quentes de denúncia moorista. Ironiza Mike que os "400 mil vets que esperam na fila pelos seus subsídios por incapacidade" resultantes da guerra do Iraque sentirão de certeza "algum conforto com o mar de faixas" de "Support Our Troops" nos carros, porque vivemos numa era "em que não é o que se faz que conta, mas os acessórios que se usa".
Mike lembra que aqueles que defendem a América são os pobres entre os mais pobres e, portanto, num país sem Estado social, os "menos saudáveis" e "menos em forma", "que não vêem um médico há anos". Posto isto, eis a primeira medida que, segundo Mike, Obama devia tomar mal chegado à Casa Branca: alistar nas forças armadas só os filhos entre os 18 e os 26 anos das famílias mais ricas do país. "Acham que teríamos invadido um país que não representava qualquer ameaça para nós se os filhos dos ricos tivessem de morrer?" - "Precisamos de começar a convocar pessoas que vão garantir que nunca mais entraremos em guerra."

E com esta derradeira posta de Washington DC vou para Chicago, ver a obamania no seu apogeu e a Casa Branca passar a Preta.

watching the tide

Metro, domingo à tarde. As esperas são maiores. Dois afro-americans pousam os casacos e começam a cantar na plataforma. Sittin' on the dock of the bay. Otis Redding. Deixei o meu contributo de um dólar para o "wasting time", já a trautear "watching the tide roll away", mas na expectativa de que, terça-feira, ninguém fique em casa por acreditar que: "Look like nothing's gonna change/Everything still remains the same/I can't do what ten people tell me to do/So I guess I'll remain the same."

Obama e McCain together em BD


Eles não vão partilhar a Casa Branca - será mesmo ou um ou outro. Mas Barack Obama e John McCain aparecem juntos num livro de banda desenhada, genial, que conta a história de cada um (as partes boas das histórias de cada um, é verdade, mas mesmo assim genial). Com duas capas, uma para Obama e outra para McCain, em pose presidencial a piscar o olho ao super-herói, ambas desenhadas por J. Scott Campbell e Edgar Delgado, o livro pode ser lido a começar por Obama ou a começar por McCain. It's up to you!

Parabéns, mommy!

A minha mãe faz 52 anos hoje. E o que têm vocês a ver com isso? Nada. Mas o blog é meu e posso escrever o que eu quiser. Além disso, eu é que estou longe e a família está toda reunida a comer cabrito! E eu aqui a morrer à fome... Mentira, ontem fui jantar ao Meskerem, um restaurante etíope fantástico no Adams Morgan, o bairro alternativo tipo Bairro Alto. Mas cabrito é cabrito, porra! Snif...
Parabéns, mommy!

sábado, 1 de novembro de 2008

tricks and treats

Apesar de ser daquelas coisas que têm mais piada em grupo, ontem fui ver como é que paravam as modinhas do Halloween a Georgetown - um bairro muito arranjadinho, classe média alta, que tem recusado ter metro à porta. Dizem os entendidos que é para aí que o povo desemboca.
Meia hora à espera do autocarro, um caos de trânsito... Ver passar super-homens e batmans, enfermeiras e frankensteins, homens das cavernas, esqueletos, objectos não identificados, um gato Sylvester muito solicitado.. Basicamente, fora alguns disfarces geniais, eles, e principalmente elas, aproveitam é para se despirem. Mas estamos em Novembro, caralho! E eles andam de tronco nu??? E elas com as pernas todas ao léu??? Esta gente não bate bem...
Mais meia hora para chegar até ao epicentro dos tricks and treats. Esganada de fome já... Vietnamita??? Nem mais. É já aqui. Não atinei com a lista e não me lembrei de uma coisa óptima que experimentei num em Montmartre, a comida sobre uma folha de lótus. Anyway, comi muuiito bem. Uma cena chamada grilled meat combo - pedaços de carne de porco e de vaca grelhados com noodles muito fininhas e cenoura esfiada, e molho de cenoura só um bocadinho doce.
Bebi um copo de vinho e começou a entrar gente e gente para beber shots. Preparei-me para sair, já de máquina de filmar em punho e: não conseguia! A puta da rua entupiu de pessoas entretanto!! O passeio dividido em trânsito ascendente e descendente, a polícia montada a cavalo. Bem, ser pequenina tem vantagens e lá me fui esgueirando dali para fora. Primeiro na direcção da estrada, entretanto cortada - ups, barras de ferro a impedir-me a passagem... Vou ter mesmo de ir com os ascendentes ou com os descendentes... Fuck...
Andei por ali mais um bocado (as filmagens parecem o Blair Witch Project) e depois foi percorrer quilómetros, com milhares de outras pessoas, em busca de um táxi... Encontrei um, nigeriano, e vim até casa a ouvir palavras em ioruba. Foi um, vamos lá, Carnaval antecipado.