Phillip Jackson, activista afroamericano e agente educativo comunitário, refere-se a ela como a “eleição de Obama”. Está “optimista”, mas “cauteloso” também. Especialmente por causa das “possibilidades de fraude”. “O nosso sistema [eleitoral] não é muito fiável”, aponta.
Em Bronzeville, o histórico bairro negro de Chicago assim chamado pela cor da pele das famílias descendentes de escravos que ali chegaram vindas do Sul segregacionista nos anos 1920/30, ninguém esconde que “a raça” é um factor importante. Barack Obama, acreditam muitos, servirá de “modelo” às crianças afroamericanas. “Ele mostrará que os negros não servem só para o basquetebol”, diz a activista e investigadora Elisabeth Solomon. O comericante James Park diz que Obama lhes fará “levantar a cabeça”.
Claro que uma vitória de Obama é apenas “o ponto de partida” e que “uma pessoa só não fará a diferença”, alerta Phillip. “Nós vamos ajudar a pô-lo lá [na Casa Branca], mas depois ele terá de dar provas”, realça o activista, que conhece pessoalmente Obama, a quem descreve como “esperto, sincero e sofisticado”. E Obama aprendeu muito com os activistas comunitários de Chicago como Phillip.
Confiante numa vitória de Obama, o investidor imobiliário Peter Payne não acredita, porém, na diferença das sondagens. “Obama ganhará, mas não por tanto.” Já o senhor que vende dois cigarros por um dólar na esquina da loja de donuts – o desemprego é elevado em Chicago, mas sobe ainda mais nos bairros afroamericanos – assinala que “muita gente foi votar”.
Roseland, a murder town
Chinatown não fica longe de Bronzeville, mas as secções de voto não proliferam na zona. Tudo – mesmo tudo – é chinês (mandarim, cantonês, whatever). Os rostos são todos chineses. Há um grupo de homens recém-chegados, sentados à espera que os orientem no bairro. Chicago é uma cidade visivelmente segregada, em que cada bairro tem uma aparência étnica – e poucas excepções.
Perto, fica os bairros latinos gémeos de Pilsen-Little Village. Julia Morales, fiscal do Estado, é um dos elementos da mesa de voto. Nasceu em Chicago há 47 anos atrás, mas é descendente de mexicanos. Julia não se lembra de ver “tanta gente a votar, logo às seis da manhã já faziam fila”. Os latinos estão por Obama, assegura. “Todos querem uma mudança”, diz, frisando que a maioria dos latinos faz trabalhos blue collar – que é como quem diz manuais, “aqueles que mais ninguém quer fazer”. E a economia está a deixar estes imigrantes – muitos deles ilegais – preocupados. “Já não vêm como antes e alguns estão a ser repatriados”, conta Julia. Na maioria mexicanos, quase não têm estudos. Para agravar a situação, os “wedo” – nome que os latinos dão aos americanos brancos – estão a procurar casas na área, porque “as rendas são mais baratas” e os latinos estão a vender.
A construção dos bairros não os sinaliza de imediato como pobres ou desfavorecidos – muitos têm casinhas baixinhas, pintadas e arranjadas, ruas amplas, lojas abertas, um aspecto cénico a milhas de uma favela brasileira e mesmo de uma Cova da Moura ou de uma Quinta do Mocho.
Mas Chicago é a cidade mais violenta dos Estados Unidos – e a máfia ainda anda por aqui. A viagem de Bronzeville para Roseland, a zona das “hundreds” – todas as ruas com números nas centenas – é curta, mas entra-se num outro mundo, avisa Phillip. Passa-se a estar em “murder town” (cidade dos assassinatos), em WaWa (wild, wild), a área onde mais se mata.
Nenhum branco na rua e um sem fim de igrejas, centros religiosos, templos. “Quando uma zona é violenta, as igrejas proliferam. Comércio é que não há”, assinala Phillip. James Park – JP, como é conhecido – tem um negócio de electrodomésticos e móveis ali perto e diz que o bairro é pacífico, desde que se ande de “colete à prova de bala”. “A polícia deixou de cá vir”, conta, apontando para o furo de bala no seu jipe. “Atira-se por atirar.”
“Estes miúdos”, aponta Phillip enquanto circulamos pelas ruas, “estão imensamente armados, e com armas automáticas”. Umas centenas de metros à frente foi erguido um memorial aos quase cem jovens – dos 11 aos 20 e tais anos – mortos nas ruas nos últimos dois anos, com a faixa Kids Off The Block, o nome de um projecto que tenta melhorar as coisas para os jovens do bairro. Na cortada à esquerda, fica “a zona onde negros e latinos se matam diariamente”, diz Phillip, esperando que Obama não se junte aos “políticos negros” que não têm feito nada para mudar as coisas – e que fecham os olhos ao tráfico e à violência. “Precisamos de alguém que cuide dos pobres, que olhe por eles”, diz JP. Em Bronzeville e Roseland, eles acham que esse alguém pode ser Obama.

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